sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cavaco Silva


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


Esta história das reformas do Presidente não chegarem para as despesas está a levantar um coro de indignação por todo o lado, com grande visibilidade na Internet. Corre um espúrio abaixo assinado a pedir a sua demissão e Cavaco já foi vaiado. Qualquer coisa se degradou, pela primeira vez, na relação de um Presidente da República com o povo português. É evidente que as palavras de Cavaco são insensatas e, no fundo, não passam de uma nova forma de mastigar bolo-rei de boca aberta. Tudo isto, mastigação de bolo-rei e exiguidade das reformas, motiva graçolas à esquerda, que nunca o suportou, e calafrios à direita, que nunca se perdoou por se ter posto nas mãos do guarda-livros do reino.

Desabafos insensatos e mastigações indelicadas são o menos. O principal problema de Cavaco é o facto de ele ter exercido cargos de responsabilidade política durante dezassete anos. Foi ministro das Finanças e do Plano durante um ano, Primeiro-ministro durante dez, e é Presidente da República há seis. Se há alguém que tem responsabilidades no regime é Cavaco Silva. Foi ele que o formatou, na pós adesão à CEE, enquanto Primeiro-ministro e que traçou as linhas gerais pelas quais os outros seguiram. Foi ele que sempre fez política negando ser político, foi ele que sempre usou e abusou da demagogia para alcançar os seus fins políticos, foi ele que sempre submeteu aos interesses das suas vitórias eleitorais os interesses do país. O mal de Cavaco não está no desabafo sobre as suas reformas nem no episódio do bolo-rei, está na sua conduta política.

O drama de Portugal reside todo aqui, reside no facto de, apesar de tudo, Cavaco Silva ser ainda o último representante de um módico de racionalidade no sistema político. Governados por um governo de orientação extremista, com a oposição moderada manietada pelo acordo com a troika, com a oposição menos moderada sem verdadeiro peso político e com uma intervenção cívica muito débil, Cavaco Silva é o único player com peso que ainda pode moderar, levemente que seja, os apetites vorazes das elites económicas e a submissão dos radicais do governo aos interesses dessas elites.

Será assim racional que aqueles que pretendem fazer frente à destruição dos equilíbrios sociais ainda existentes moderem as críticas a Cavaco. A insensatez das suas palavras sobre as reformas não deve ocultar a verdadeira floresta e os perigos que ela contém. Apesar de tudo, Cavaco Silva não é o mal radical. Este está noutro lado e é para aí que se devem orientar as baterias.