sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O retorno do neo-realismo

A minha crónica de hoje no Jornal Torrejano.



Nos finais dos anos oitenta dei aulas numa conhecida cidade alentejana. Apesar da revolução ter ocorrido há década e meia, apesar da forte influência do Partido Comunista, as relações sociais pareciam solidificadas no tempo. Durante o ano que aí leccionei, frequentei um célebre e tradicional café local. O quadro que me era oferecido fazia lembrar as descrições da literatura neo-realista. Tinha saído de Torres Novas – apesar da sua pequenez e falta de massa crítica, vivia relativamente adequada à sua época – e aterrara quatro décadas atrás. A vida social que me era dada a observar seria a normal nos anos quarenta e cinquenta do século XX.

Aquilo a que estamos a assistir neste momento em Portugal, nomeadamente nas relações laborais, na estratégia de exploração de uma mão-de-obra cada vez mais barata mostra duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, torna evidente que toda a estratégia de adesão de Portugal à União Europeia foi sofrivelmente pensada, mal executada e pessimamente dirigida. Não se olhou nem para a nossa realidade social e económica nem para aquilo que somos efectivamente enquanto povo. E essa política conduziu ao sítio onde estamos. Formalmente as coisas pareciam funcionar (por isso os políticos eram reeleitos), mas as opções erradas acabaram agora por se tornar óbvias. Os políticos portugueses foram muito bons em produzir e vender ilusões, mas perfeitamente incompetentes em lidar com a realidade.

Em segundo lugar, quando o descalabro de 25 anos de políticas erradas se torna evidente, o único modelo que a elite governativa possui na cabeça é o retorno a relações sociais que preenchem um certo imaginário perdido. Aquele que os dirigentes actuais tinham ouvido a pais e avós, os bons tempos de mão-de-obra barata, da criadagem em casa, da grande diferença entre grupos sociais, que permitia a uns recrutar, muitas vezes a troco de comida e dormida, pessoas para os seus serviços, dos velhos tempos de um paternalismo caridoso. Um retorno aos anos quarente e cinquenta do século passado.

Apesar do neo-realismo ter sido uma corrente estética marxista, a nossa direita nunca deixou de ser neo-realista, de sonhar com aquele mundo de senhores e de servos que alimenta a literatura e o cinema neo-realistas. Com o governo de Passos Coelho, retornamos, no âmbito da estética política, ao neo-realismo. Mas o primeiro-ministro deveria recordar as palavras de Marx. A história repete-se, uma vez ocorre como tragédia, a outra como farsa. Estamos no tempo da farsa.