domingo, 29 de janeiro de 2012

Pensar, pensar e voltar a pensar




Perante o descalabro que se aproxima, perante a intensificação da velocidade com que a vida económica se transforma tornando tudo e todos em pura obsolescência, o sentimento comum refugia-se na necessidade de fazer qualquer coisa. É preciso agir, a praxis tem a última palavra. Este sentimento encontrou, nas teses de Marx ad Feuerbach, na celebérrima 11.ª tese, a sua consigna eterna: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

Se há, ao cimo do planeta, algo ou alguém que percebeu a tese marxiana, esses foram o capitalismo e os seus defensores e agentes. O capitalismo é essencialmente transformador do mundo e das próprias figuras sob as quais ele próprio se apresenta no palco do drama mundano. Por isso, faz todo o sentido o que Slavoj Žižek afirma: “A pressão no sentido de «fazer alguma coisa» assemelha-se neste caso à compulsão supersticiosa que nos leva a fazer este ou aquele gesto enquanto observamos um processo sobre o qual os nossos gestos não têm qualquer influência real. Não serão os nossos actos, muitas vezes, gestos desse tipo? O velho dito: «Fala menos e faz mais» é uma das cosas mais estúpidas que podemos dizer, ainda que nos limitemos aos critérios menos elevados do senso comum. (S. Žižek, Da Tragédia à Farsa, p. 19)”

Aqueles que querem um mundo equilibrado e com um módico de justiça talvez tenham que perceber que muitos dos seus actos não passam de rituais mágicos sem capacidade de interferir no real. No momento, em que o desenvolvimento do capitalismo atinge o paroxismo, mais importante que a acção, muitas vezes cega e sem sentido, é pensar. Estamos no tempo da teoria. O que quer dizer isso? Que é tempo de compreender o que as coisas são e como operam. Para quê? Para compreender a dimensão trágica que elas contêm e a forma como lidar com elas, amenizando a inevitável tragédia que se aproxima. Estes ainda são tempo da filosofia.