terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ruínas – o viver para a morte



Este conjunto de dezasseis fotografias publicadas pelo Guardian deixa na boca um travo amargo. As fotos são um trabalho de Yves Marchand e Romain Meffre sobre o dramático declínio de uma das maiores cidades americanas, Detroit. É um extraordinário exercício sobre a morte, sobre a insinuação da morte como centro da vida. Não se vêem corpos, mas apenas os restos de vida, restos inscritos nas ruínas de um mundo contemporâneo. Não estamos perante ruínas de civilizações desaparecidas, mas perante a ruína da nossa própria civilização, ruínas de coisas que ainda há pouco tinham vida plena. Ruínas sempre se produziram, qual a novidade de tudo isto? Há algo de absolutamente excepcional que se revela nestas fotos. Enquanto as sociedades tradicionais lutam contra a morte e tentam prolongar tradições, modos de vida e objectos materiais até mais não poderem, as sociedades fundadas na economia de mercado fazem da morte o seu modo de vida. O que se vê nestas fotografias é o niilismo que habita o centro da nossa vida, a revelação da essência das nossas sociedades: viver para a morte.