sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Silêncio ensurdecedor



Teremos, enquanto comunidade nacional, chegado ao fim? Terá o projecto iniciado por Afonso Henriques, em 1143, esgotado todas as potencialidades? Não é apenas a malfadada crise, o desemprego crescente, o empobrecimento inevitável. Nem sequer, o desânimo de ouvir, a cada passo, um governante convidar os portugueses a emigrar, nem tão pouco o facto de termos de suportar uma elite política ignara e indigente. Isso ainda seria suportável e superável.
Incomoda o silêncio e a apatia dos cidadãos em geral, que parecem aceitar tudo como se fosse um destino inexorável. Exultam os governantes por não sermos como os gregos, por nos manifestarmos pacatamente, como quem vai à procissão do Senhor Morto ou a um funeral. Cegos com a saloiice do aluno bem comportado, como se vida de uma nação não passasse de uma temporada escolar, as elites não percebem que a pacatez é sintoma de doença da vontade, de falta de energia, de impotência de um povo que se entrega, em silêncio, ao cruel destino de desistir de si mesmo.
Incomoda o carácter mesquinho das elites económicas, sem qualquer interesse que não seja o da sua propriedade. Iniciativa, risco, criação de riqueza, descoberta de novos mercados, de novos produtos, alteração dos métodos de gestão, tudo isso parece, em Portugal, um sonho. Esperam salários ainda mais baixos, mais horas de trabalho, mais uns contratos com o Estado, se ainda for possível, ou, em alternativa a tudo isso, pôr o dinheiro a render em algum paraíso fiscal.
Incomoda o silêncio da universidade e da intelectualidade. Nada têm para dizer sobre o país, sobre as alternativas para sairmos do pântano onde estamos atolados. Não há um debate sério, com conflito de ideias, sobre a situação. Discutem-se aventais. Um país que está à beira do colapso passa uma temporada infinita a discutir a magna questão de quem pertence à Maçonaria.
Para onde orientar a economia? O que fazer da nossa cultura? Como deveremos pensar a nossa relação com a União Europeia e para onde deve esta caminhar? Como activar as nossas relações com as comunidades portuguesas existentes pelo mundo? O que deveremos fazer na relação com o mundo globalizado? Que problemas e que oportunidades resultam da nossa natureza periférica e atlântica? Nada disto interessa à universidade e à intelectualidade portuguesas.
Um povo impotente e doente da vontade, elites impreparadas, mesquinhas e cínicas parecem anunciar o pior. É ensurdecedor o silêncio que existe em torno do destino de Portugal.