segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tempo: Cronos, Kairos e Hora


O último poema da Mensagem, de Fernando Pessoa, tem por título “Nevoeiro”. Faz parte de uma série de cinco poemas sob a denominação de “Os Tempos”. Mas esse último poema termina com o singular verso «É a Hora!». Esta Hora, todavia, não remete para o tempo cronológico, aquele que se pode contar e organizar segundo um qualquer calendário. É um tempo qualitativo. Os gregos utilizavam duas palavras para tempo. Cronos e kairos. Por cronos designavam o tempo sequencial, alinhado do passado em direcção ao futuro, pela mediação do presente. Por kairos referiam o momento oportuno, o momento especial do acontecer. Para o cristianismo, kairos é o tempo da acção divina. Seja na perspectiva grega seja na cristã, o kairos representa sempre uma ruptura no tempo cronológico, uma espécie de abertura onde algo se inscreve. A Hora pessoana aproxima-se do kairos grego. Significa que algo está preparado e pode consumar-se, porque esse é o seu momento. Há, no entanto, algo mais nesta Hora. O verso surge como uma injunção: «É a Hora!». Na Hora estão presentes três coisas: o tempo cronológico, a abertura de um momento que suspende o normal transcurso e do mundo (o kairos), e a iniciativa que o verso exige. Na Hora pessoana inscreve-se uma dialéctica entre kairos e iniciativa. O kairos não é apenas uma coisa que surge e que exige de nós mera atenção. O kairos, a Hora, exige a iniciativa de a preparar, de fazer amadurecer o mundo, para que o fruto caia. Desse ponto de vista, o kairos não é apenas o tempo da acção de Deus ou uma mera oportunidade oferecida pelo destino, mas também aquilo que a iniciativa do homem preparou. Não é apenas um acontecimento, mas aquilo que resulta de uma sabedoria que faz acontecer. 

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