quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As opacidades de José Gil


Já aqui escrevi que não tenho posição definida sobre o novo acordo ortográfico. Não faço ideia se as alterações introduzidas na escrita são, tecnicamente, boas ou más. Como também já escrevi aqui, acho que há muita pesporrência por parte dos cavaleiros que fazem do acordo um dragão a abater. Um dos exemplos acabados de pesporrência é dado por uma pessoa que tenho em grande consideração intelectual, o filósofo José Gil. Contrariamente à Ivone, acho que com argumentos destes está tudo perdido. Vejamos

José Gil parte de uma tese: “O Acordo mutila o pensamento.” Que argumentos são dados para justificar tão extraordinária afirmação? Podemos considerar dois: 1. “A simplificação das palavras, a redução à pura fonética, o “acto” que se torna “ato”, tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação. Todo o mistério essencial da escrita que lhe vem da opacidade da ortografia, do seu esoterismo, desaparece agora.” 2. “O fim das consoantes mudas, as mudanças nos hífenes, a eliminação dos acentos, etc. transformam o português numa língua prática, utilitária, manipulável como um utensílio. Como se expusesse todo o seu sentido à superfície da escrita.”

Em resumo, o pensamento seria mutilado porque a língua se torna num veículo transparente de comunicação e, por outro lado, se torna superficial devido ao seu carácter utilitário trazido pela nova ortografia. Estes argumentos não são bons para justificar a tese nem são verdadeiros em si mesmos.

Em primeiro lugar, o mistério essencial da língua não deriva da opacidade e do esoterismo da ortografia, mas do carácter polissémico dos vocábulos usados, dos jogos de sentido que estão presentes na construção textual. A opacidade e o mistério da língua não residem no vocábulo mas no texto, nesse entretecimento de vocábulos que formam sentidos múltiplos, inesperados, indecidíveis. O exemplo escolhido por José Gil é, no caso concreto, um péssimo exemplo. A transformação do “acto” em “ato” aumenta a opacidade da língua e não a diminui. Agora, preciso do contexto para determinar se por “ato” me refiro ao campo semântico da acção ou ao campo semântico do atar. A homonímia aumenta e não diminui o mistério da língua, torna a língua mais opaca e menos transparente. O que o Acordo faz, no caso referido, é produzir homonímia. Acto tem-se escrito desse modo devido à etimologia latina actus. Mas terá reparado José Gil que ato do verbo atar remete para uma etimologia que implicaria uma consoante muda, aptāre? Qual será a hora exacta para ser aceitável a queda de uma consoante muda?

Em segundo lugar, também é falso que as transformações propostas exponham todo o sentido da língua à superfície da escrita. Imaginemos a seguinte proposição:  os meus actos reflectem o meu estado de espírito. Será que o sentido desta proposição se dá todo ele à superfície da escrita se optarmos pela versão acordográfica, os meus atos refletem o meu estado de espírito? Será que refletir é menos polissémico que reflectir? E atos, ao tornar mais indirecta a referência a actiōne, não torna a língua menos superficial, contrariamente ao que sugere José Gil, exigindo um maior trabalho de arqueologia semântica, digamos assim?

Adicionalmente, acrescento ainda o seguinte: a pretensa redução da ortografia a uma mimésis da fonética não torna a relação entre a emissão fónica e a representação gráfica menos complexa e menos misteriosa. Esse mistério começa por residir no longo trabalho analítico que conduziu à decomposição das emissões sonoras nas suas unidades mais simples, para depois as fazer representar por signos gráficos que resultaram de um longo processo de estilização e de simplificação (mas disto nada sei). As alterações que se pretendem introduzir não afectam o mínimo que seja todo esse mistério nem tornam a linguagem mais transparente ou, como diz José Gil, "tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação". E isto por uma impossibilidade constitucional da linguagem. A opacidade da língua não reside na escrita mas na própria língua, na sua capacidade de significar, de fazer convergir no discurso infinitas experiências. Como é que a alteração da ortografia poderá tornar transparente o que é opaco por essência?

O que mutila o pensamento não é o Acordo, o que mutila o pensamento é pensar mal, cometer erros lógicos, mobilizar falácias, etc. O que mutila o pensamento é torná-lo obscuro de forma deliberada. O pensamento é sempre uma luta contra a opacidade e o mistério. A literatura vive da opacidade e do mistério, a filosofia, porém, é um exercício de clarificação contínua. Isto significa que o mistério e a obscuridade existem, mas que o pensamento tenta penetrar neles e fazer luz. Mas o mistério não deriva da ortografia, mas da própria realidade e da própria linguagem. A ortografia, contrariamente à linguagem (enfim, o Saussure vai perdoar-me) é uma convenção.

Reafirmo que não tenho posição sobre a questão do Acordo. O que acho insuportável são argumentos como os apresentados por José Gil.