segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Da tomada de posição como doença


É loucura imaginar que a verdade reside na escolha, quando toda a tomada de posição equivale a um desprezo da verdade. Para nossa infelicidade, escolher, tomar posição são uma fatalidade à qual ninguém escapa; cada um de nós deve optar por uma não-realidade, por um erro, convencidos da força que, doentes, temos ao estar febris: os nossos assentimentos, as nossas adesões são sintomas alarmantes. Quem quer que se confunda com o que quer que seja faz prova de disposições mórbidas: não há salvação nem saúde fora do ser puro, tão puro como o vazio. (Emil Cioran, Exercices d'Admiration)

Há, de facto, na atitude de tomar posição, de tomar partido, uma experiência que merece ser pensada, uma experiência mórbida como salienta Cioran. Talvez a generalidade dos espíritos partidários - e tomar partido ou posição é bem uma fatalidade que a todos atinge em alguma situação, como o saliente Cioran - cubram a morbidez com uma dose de fanatismo que, antes de ocultar a realidade, esconde a sensação doentia que nos atinge. Raramente queremos reconhecer que nos pontos de vista aos quais nos opomos alguma razão lhes assiste. Fazemos da tensão agónica de perspectivas diferentes e/ou opostas o lugar onde esquecemos a limitação do nosso próprio ponto de vista. Essa experiência - que senti múltiplas vezes ao longo da minha vida - torna a acção possível. Toda a acção vive do perspectivismo e do conflito entre particularidades, e desse ponto de vista toda a acção contém em si as sementes de uma tragédia, e é sintoma de estados patológicos. Praxis e pathos requerem-se mutuamente, e não há acção sem que alguém ou algo sofra o efeito dessa acção.

A grande dificuldade, no entanto, reside na busca da saúde ou da salvação, na procura de um estado não patológico. Não serão ainda, saúde e salvação, formas perspectivistas que se opõem à doença e à perdição? O vazio não estará para lá dessas dicotomias entre saúde e doença, salvação e perdição? Há que abandonar não apenas a ideia ilusória de que nos podemos curar ou salvar na tomada de posição, mas também as próprias ideias de salvação e de saúde. Se o fizermos seremos, porém, ainda homens? E se conseguirmos esse vazio, essa "instalação" no ser puro, os nossos gestos e os nossos actos serão ainda formas de acção? A única resposta que encontro para estas perguntas ainda é uma outra pergunta: por que queremos ainda ser homens? Não é nessa humanidade que se colocam todos os perspectivismos, todas as dicotomias, todas as angústias da doença e da perdição, bem como todas as falsas esperanças da cura e da salvação? Por que queremos ainda ser homens?