quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A glória do mando e o mercado militar


Andam agitadas as águas militares, digamos assim. Contestam a política salarial consagrada no Orçamento de Estado. Este conflito foi acentuado por declarações do ministro respectivo. Mas pequenas coisas como esta, a dos exemplares do livro com o programa do governo pagos a 120 euros a unidade, as nomeações de pessoal político, onde se assegura a retribuição de 14 salários (mesmo que o nome dado seja outro) ou as declarações de Pedro Passos Coelho, onde afirmava sentir-se mal pago, não ajudam a criar um clima propício a que as pessoas aceitem o esbulho de dois salários, para além das diminuições já havidas e do crescimento sem fim dos impostos. 

Estas pequenas coisas, em si pouco significam economicamente. São, contudo, exemplares. O que exemplificam elas? A mentalidade das elites políticas. Em primeiro lugar, acham que os seus salários deveriam estar mais relacionados com os gestores de topo das multinacionais do que com o rendimento geral dos portugueses. Em segundo lugar, acreditam que a austeridade é para os outros, que não deve atingir o fausto do poder. Os que fazem carreira política têm dois tipos de retribuição. Uma é de natureza pecuniária. A outra, porém, é de natureza simbólica e está ligada à glória do mando. E esta é a principal retribuição de uma personalidade que se dedica à política. Não há político, simples autarca que seja, que não deseje ficar na história, ver o seu nome glorificado pela ligação ao poder dentro da comunidade.

É por isso que os sinais de fausto do poder - esta pequena e triste história dos livros com o programa governamental, os carros, os assessores, etc., etc. - são tão importantes para esta gente. Por muito que possam protestar em contrário, a acção dos políticos é um exercício continuado de narcisismo e de glorificação da sua pessoa. Ainda por cima foram eleitos. Eleitos, para eles, não significa que foram escolhidos para prestar um serviço à comunidade. Significa apenas que possuem um destino tocado pela deusa Fortuna que os eleva acima do comum dos mortais, e fundamentalmente daqueles que, como os militares, prestam um serviço profissional ao Estado. A esses não cabe a glória nem o consequente reconhecimento. Prestam um serviço que, em última análise, deverá ser regulado pelas leis do mercado. Isto só pode gerar conflitos sem fim.