domingo, 19 de fevereiro de 2012

Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer


O que surpreende na novela de Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, será menos o tema tratado - o ciúme - que a questão da confissão e as implicações que esta possui. Aparentemente, tudo gira em torno da vida de um casal, que desde muito cedo descobre a tensão entre o prazer físico que proporcionavam um ao outro e a insuportabilidade da vida comum. Nesta tensão, o ciúme do homem tem um papel preponderante. A estratégia narrativa da novela assenta no relato da confissão, feita numa viagem de comboio, do protagonista ao narrador. Todo o relato é um exercício confessional, onde a alma torturada do que se confessa se exterioriza e se mostra numa tentativa para alcançar a verdade dos seus actos (desde as cenas de ciúme até ao assassinato da mulher).

Apesar de juridicamente absolvido (um crime de honra ainda permitido naqueles dias), o espírito do homem sente uma compulsão terrível para a exteriorização. A confissão não é, pelo menos em primeiro lugar, a busca de uma absolvição ou de uma compreensão de outrem. Ela é a objectivação da vida, o torná-la exterior para a poder captar na sua realidade objectiva. Confessar-se é projectar para fora de si aquilo que é do foro íntimo, trazê-lo para o espaço público, aliená-lo da vida interior, para o poder captar sossegadamente - não por acaso, o protagonista adormece após a confissão - e, no estranhamento assim conquistado, afastar de si uma parte de si.

O génio de Tolstoi evidencia-se, nesta novela, de múltiplas maneiras, desde a descrição das cenas de ciúme até à caracterização das personagens, passando pela exposição das concepções ideológico-sociais daquele que se confessa. O mais interessante, porém, é o jogo da confissão estar assente todo ele na não confissão. Na hora da morte, no momento em que o protagonista esperava a confissão da mulher, do reconhecimento que teria havido uma traição e que tudo aquilo não era apenas o fruto de uma imaginação exacerbada, ela não o faz. O segredo - mesmo que fosse o segredo de não haver qualquer segredo - não foi revelado, ficou fechado na vida íntima da mulher, e nem mesmo a iminência da morte a conduziu à necessidade de se exteriorizar num acto confessional.

Publicidade e intimidade confrontam-se, deste modo, na novela de Tolstoi, como modos eminentemente diferenciados de conviver consigo mesmo. A confissão é uma invenção masculina e responde a essa necessidade de publicar para suportar, e suportar porque compreende aquilo que agora se tornou público e estranho. A razão justifica, apaga e apazigua. Na mulher tudo é mais secreto, tudo fica fechado no coração. E isto apenas pelo motivo de que a verdade, a sua verdade, é irrevelável. Não porque a queira ocultar, mas porque não há maneira de a tornar pública. A verdade masculina é sempre confessável; a feminina é sempre secreta. Os homens até a vida íntima precisam de torná-la exterior. As mulheres, mesmo as mulheres públicas, só possuem vida interior.