sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O equívoco do senhor cardeal


O discurso do novo cardeal português, Manuel Monteiro de Castro, é o espelho fiel da dificuldade da Igreja Católica lidar com a modernidade. Refere que o maior problema de Portugal é o "pouco apoio que o Estado dá à família" e que "a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos" (Público). Vou dar de barato aquilo que indignará, por certo, as mentes mais feministas. Hoje em dia, nem mesmo a Igreja Católica, deveria permitir-se a esta distribuição de funções segundo a essência dada pelo sexo. É evidente que as funções do homem e da mulher são diferentes, não porque sejam funções diferentes, mas porque são realizadas de forma diferente. A função essencial da mulher não é educar os filhos, mas ser mulher em tudo o que faz e não apenas na educação dos filhos, como a função do homem é ser homem em tudo o que faz, o que deve incluir a educação dos filhos. Seria bom que os cardeais pensassem as coisas deste ponto de vista, embora como não possuem (maldita polissemia) mulheres, talvez lhes falte o saber de experiência feito. Mas isto é uma mera conjectura.

Por outro lado, o senhor cardeal parece completamente deslocado do mundo em que vivemos. As forças que comandam a economia - e que colonizaram por completo a política - não querem saber da educação dos filhos de ninguém - excluindo a dos seus - para nada e, por isso, o Estado está a retirar-se de tudo o que pode criar um ambiente onde a família seja protegida. Os Estados não mandam nada e não têm um tostão para proteger a comunidade e as famílias que a compõem. O Estado vive para satisfazer as pretensões daqueles que comandam os mercados, para - como estamos a aprender em Portugal - limpar todos os obstáculos que se levantem à quase escravidão das pessoas e à livre acção do capital. Como diria um membro do actual governo, o senhor cardeal vive numa zona de conforto. Isso não lhe permite perceber que as suas palavras não fazem qualquer sentido perante a ignóbil realidade onde somos obrigados a viver. O problema de Portugal, como o do resto do mundo, reside nos valores que tomaram conta da política e da sociedade, valores que colocam a produção, venda e consumo de mercadorias muito acima do valor da vida humana. A família é mesmo para destruir, e não é o divórcio que a destrói, é a economia, como o está mostrar de forma clara a actual governação.