sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O retorno da religião


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


A entrevista dada, ao Público de sábado passado, pelo politólogo italiano Franco Cazzola tem múltiplos motivos de interesse, nomeadamente a questão da morte da esquerda. Segundo Cazzola, a esquerda terá morrido, porque a sua linguagem morreu. No entanto, esta proposição, já de si bastante ousada, assenta numa outra constatação do autor. No livro O que Resta da Esquerda, é referido que aquilo que destruiu a esquerda foi a transferência do poder da política para o mercado. O verdadeiro centro de poder reside agora na esfera da economia.

A questão central não se encontra, assim, na morte da esquerda, mas no fim da própria política, tal como a entendemos desde a cidade-estado da Grécia antiga. Para perceber o efectivo alcance daquilo a que estamos a assistir, precisamos de compreender o significado da esquerda na vida política. Ela representou sempre – independentemente das suas práticas reais – a secularização da esperança. A esquerda é a resposta à transferência da crença no paraíso celeste para o terrestre, transferência que é operada pela política. Ela representou para milhões de pessoas um princípio de esperança, a expectativa de uma vida menos dolorosa e mais decente.

A secularização da esperança foi concomitante com a perda de influência do Cristianismo. De certa maneira, a esquerda sempre teve – mesmo e principalmente quando se se dizia ateia – uma dimensão religiosa, a qual supriu, na imensa massa dos trabalhadores, as necessidades de fé. O que o neoliberalismo está a fazer não é apenas a destruir a política. Está a destruir aquilo que constituía o núcleo central das crenças de muitos milhões de pessoas, sem ter nada para lhes dar, a não ser a vaga expectativa de um emprego precário e mal pago.

A consequência disto está longe de estar sopesada. O primeiro momento vai ser o desespero. Mas, como a política está morta, esse desespero vai procurar abrigo naquilo que, durante toda a história da humanidade, foi o abrigo dos desesperados, a religiosidade. E está longe de ser claro que a religião a vir seja ainda uma forma de Cristianismo. Seja o que for, a religião a vir não pactuará nem com a autonomia do mercado nem com a independência do poder secular face ao religioso. O desespero inflamado pela fé religiosa não se entrega a esses luxos. O neoliberalismo está a preparar a morte das sociedades liberais à mão do impulso mais ancestral que constitui o homem, a fé religiosa. As primaveras árabes são uma lição. Os europeus não são árabes? Não, não são. Mas em breve viverão tão mal quanto os árabes.