segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Tirésias - a cegueira do presente


Tirésias é um famoso profeta e adivinho de Tebas. Famoso pelas suas intervenções junto de Ulisses, na Odisseia, ou pelo seu papel de agente de revelação na tragédia de Sófocles, Édipo Tirano. Tinha a particularidade de ser cego. Como em quase tudo, as fontes do mito de Tirésias não coincidem. Umas indicam que ficou cego porque viu Palas Atena a banhar-se numa fonte. O sentido desta versão é claro: Os homens não suportam ver a divindade tal como ela é, daí a cegueira ter atingido Tirésias. Outras fontes indicam uma história um pouco mais complexa. Tendo sido chamado a arbitrar uma disputa entre Zeus e a sua mulher, Hera, (disputavam sobre quem teria mais prazer no amor sexual, defendendo cada um dos deuses que era o outro o que extraía mais prazer do amor) Tirésias - que tinha sido mulher durante sete anos e possuía uma perspectiva que abarcava os dois pontos de vista - disse que se dividisse o prazer dado pelo amor erótico em dez partes, nove caberiam à mulher e uma ao homem. Hera, derrotada, cegou-o. Zeus, compungido, deu-lhe a capacidade de previsão.

Prever significa, literalmente, ver antes, invadir o território do futuro, tornar próximo o distante. O núcleo central do mito de Tirésias reside na tensão entre a cegueira para o presente, para aquilo que se dá na sua presença imediata, e a capacidade de ver para além do que está presente. A condição para que se preveja o futuro é o corte com o fascínio que o presente exerce sobre a consciência. Édipo, atormentado com o que vem do passado, foge e, em Tebas, embrenha-se no presente. O presente, no seu esplendor, fascina-o. Preso nesse fascínio, como todos nós, Édipo é impotente para prever o futuro. Pagou, quando o futuro se tornou presente, duramente o fascínio da presença. 

É o que acontece a todos nós. Neste nós inclui-se aqueles que dirigem os destinos de uma comunidade. É preciso não esquecer que Édipo era o tirano (ou rei, conforme as traduções) de Tebas. Na acção governativa, os políticos têm os olhos bem abertos para o que é presente (dão-lhe o nome de problemas). Mas esse estar de olhos abertos significa estar fascinado com o que se manifesta, significa estar cego para aquilo que o anjo da história prepara no além. As tragédias de Édipo ou de Agámemnon seriam evitadas se eles fossem cegos para o presente e penetrassem, como Tirésias, no território do futuro. Mas não era essa a sua condição. Também, hoje em dia, os governantes, de olhos tão abertos para o presente, não pressentem a tragédia que o futuro tem para trazer. Antes fossem cegos.