domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um convite à moderação


A manifestação de ontem, promovida pela CGTP, merece atenção por diversos motivos. Mostra que o movimento sindical não está tão morto quanto era pressuposto estar. Concomitantemente, torna claro que o PCP existe e tem uma palavra a dizer dentro do regime. Revela a muita gente, que nunca saiu do seu pequeno círculo social, que existem pessoas para além desse círculo. Tudo isso é verdade, mas o que mais impressiona no evento não é a grandeza da participação (que é óbvia), mas a ordem e a disciplina com que decorreu. A mensagem, apesar de implícita, é muito clara. Ela diz: cuidado, até aqui nós (claro, que o PCP) temos mão nas pessoas, ainda somos capazes de canalizar a dor, a pobreza e as humilhações para dentro do parlamento. Nada garante, porém, que isso seja sempre assim. Se o desespero aumentar, não teremos um Terreiro do Paço cheio, mas respeitador da ordem, teremos focos incendiários nos quais já não teremos mão. Ontem o PCP mostrou que o regime precisa dele. Mas para que o PCP tenha utilidade é preciso que as pessoas que ele representa - e ele representa muito mais do que aquelas que nele votam - não sejam jogadas no lixo como se tratassem de dejectos. Não sei se há inteligência social suficiente no governo para entender a mensagem de ontem. Radicais raramente entendem o que não vem escrito nos dogmas perfilhados. A manifestação de ontem foi um convite à moderação. Esperemos que o governo perceba que a seguir pode vir o desespero trágico dos gregos.