sexta-feira, 16 de março de 2012

A cama do Sidónio


Pacheco Pereira afirmou, na passada terça-feira, que estava a cama posta para o surgimento de um novo Sidónio Pais. Tanto quanto se percebe do artigo do Público, o fundamento da argumentação está na conexão da demagogia com os meios de comunicação social, como a televisão, que potenciam, num ambiente de crise social e de destruição da frágil classe média ainda existente, o surgimento de alguém do género do Presidente-Rei.

Esta é uma explicação clássica. Mas fará ela sentido? Em aparência, sim. É todavia uma explicação limitada que não em tem em consideração o facto de vivermos numa época de pós-democracia. O colapso da União Soviética e a queda do Muro de Berlim assinalam a entrada do Ocidente numa fase de pós-democracia. A democracia é, aparentemente, um método de escolha das elites políticas. Mas a este conteúdo formal corresponde um outro conteúdo material marcado pela tensão entre alternativas políticas reais, correspondentes a interesses sociais diferenciados. Nos primeiros tempos, a democracia viveu do conflito entre a aristocracia e a burguesia ascendente. Este conflito, dirimido em favor da burguesia, foi sendo substituído por um outro conflito entre a burguesia e as classes trabalhadoras. 

O fim da ameaça comunista e a imaterialização da economia (refiro-me, por exemplo, ao fluxo instantâneo dos capitais) inauguram uma época em que os conflitos entre classes, apesar de existirem e de persistirem, deixaram de ter possibilidade de resolução política - uma resolução sempre provisória (veja-se o que se passa, num regime diferente do nosso, como a China). Isto retirou conteúdo substantivo à democracia e tornou-a irrelevante do ponto de vista político. A partir de determinado momento a única coisa que está em jogo é a pura manutenção da ordem. 

Uma era pós-democrática como a que vivemos não significa, obrigatoriamente, o fim de certos rituais democráticos ou mesmo de certas instituições onde a democracia viveu. Significa que ela se tornou um valor puramente utilitário e será mantida não pela sua nobreza ideal mas apenas pela utilidade que demonstrar para manter os territórios sob controlo. Não é a crise conjugada com os meios de comunicação social que podem destruir a democracia. O facto dela implodir - ou viver num estado de sonambulismo contínuo - deve-se ao esvaziamento do seu conteúdo substantivo. Este é o fundamento de que a crise e a demagogia potenciada pela comunicação social são aparência, para utilizar uma oposição conceptual tão ao gosto da filosofia.