sexta-feira, 16 de março de 2012

Ensaio sobre a cegueira



Todos somos cegos para o futuro. Este oculta-se num véu impenetrável. Há, porém, uma cegueira pior, a cegueira perante o presente, como se este, na sua cintilação, ofuscasse quem deveria olhar para ele. Os governos de José Sócrates podem fornecer matéria suficiente para um estudo de caso deste tipo de cegueira política. Quando Sócrates assume a governação, existe no governo o pressentimento de que uma desgraça inominável se perfila no horizonte.

É esse pressentimento que o leva a eleger, em primeiro lugar e numa lógica utilitarista, os professores do ensino não superior como bode expiatória do mal cuja sombra começava a pairar sobre Portugal. A finalidade era simples. Os professores deveriam ser uma espécie de Cristo, cujo sacrifício redimiria o todo nacional. Mas a cegueira perante o presente não permitiu perceber que essa ideia absurda não tinha capacidade para penetrar profundamente no corpo da nação. A queda de Sócrates começou aí, começou na cegueira perante o sentimento de justiça que habita uma comunidade.

Esta cegueira foi apenas um pequeno sintoma do que viria depois. Quando a crise se avolumou e começou a desabar sobre todos nós, Sócrates, cego para o presente, desorientado perante a ameaça, entra num processo de negação da realidade até que os portugueses dispensaram os seus serviços e lhe permitiram ir tratar-se para Paris. Este exemplo deveria fazer pensar aqueles que lhe sucederam.

A cegueira tem causas múltiplas. A de Sócrates deveu-se a uma desorientação global. Mas por vezes a cegueira nasce de objectivos muito claros e definidos, os quais se tornam uma espécie de sol que ilumina o caminho. Mas o sol não ilumina apenas, também ofusca. É o que parece passar-se com o actual governo. Pensando ser radicalmente diferente do anterior, é tão cego para  presente como o de Sócrates. Que o investimento diminua, que o desemprego aumente, que as pessoas desesperem, que a economia real esteja em vias de desaparecer, nada disto é visto pelos governantes portugueses.

Há um objectivo ideológico, fundado na valorização da pobreza e da precariedade, e só isso conta. Passos Coelho e Vítor Gaspar não são profetas, por isso não têm que prever o futuro. A um governante, porém, pede-se que não seja cego para o presente. Foi isso que, aqui o lado, fez Mariano Rajoy. Sócrates pode estar em Paris, mas a sua cegueira perante a realidade presente foi, como tantas vezes acontece, herdada por aqueles que o derrotaram. Governar em Portugal parece ser um exercício de cegueira.