sexta-feira, 23 de março de 2012

A maioria silenciosa


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


Contrariamente a gregos e a espanhóis, mesmo a italianos, os portugueses têm aceitado em silêncio as medidas de austeridade impostas pela troika ou inventados com zelo e sofreguidão pelo governo. Lê-se muitas vezes que esse silêncio, apesar de conter alguma indignação, é fruto do medo. Será verdade. Verdade parcial. No silêncio dos portugueses há também a sabedoria de um povo com nove séculos de história, de uma gente que já viu e viveu muito, de uma comunidade que se dispersou pela diáspora e de lá recolheu um saber do mundo e das coisas.

Quando Vítor Gaspar diz que o ajustamento da economia nacional será mais rápido e mais bem sucedido do que se pensava, as pessoas percebem bem o que isso significa. Sabem, por experiência secular, que a maioria vai empobrecer ainda mais, que muitos morrerão mais rapidamente, que os bens sociais – saúde, educação, protecção no desemprego e na velhice – serão cada vez piores. Sabem ainda que haverá alguns que irão ganhar muito com o ajustamento da economia e que o governo – este ou outro – não deixará de zelar pelos interesses desse pequeno grupo beneficiário da pobreza generalizada.

Se a canção nacional é o fado, isso deriva da mesma fonte de sabedoria, provém da percepção de um destino sentido como inelutável. Por muito que liberais e revolucionários falem de iniciativa – privada para os primeiros, colectiva para os segundos –, os portugueses são velhos demais para se deixarem iludir. A iniciativa é um luxo que, neste território, sempre se pagou demasiado caro, por vezes com a vida. Preferem o silêncio.

Fazem-no não por cobardia mas por manha. Durante os nove séculos da nossa história, aprenderam a competência fundamental que permite sobreviver: ser manhoso. Isto significa passar despercebido, fingir que não se existe. A finalidade é simples: esperar que o destino não dê por nós, que a morte ou o desemprego passe ao lado, que a vida não nos pregue uma partida. Mas tudo isto não é deplorável e um sintoma de falta de energia e de dignidade? Talvez. Mas essas acusações só podem vir daqueles que, de alguma forma, se encontram em alguma área de conforto (e há áreas de conforto insuspeitadas). Quem tem de chegar ao dia seguinte e não sabe se isso acontecerá está concentrado apenas em tentar enganar o destino.

Não nos iludamos: o silêncio e o exercício da manha não significam adesão aos propósitos do governo e das classes sociais que este defende. Na primeira oportunidade, a maioria silenciosa tirará desforra e vingança. Lembram-se do PREC em 1975?