segunda-feira, 26 de março de 2012

Os portugueses e o Estado


Um dos enigmas que perturba aquelas que pensam sobre Portugal é o da persistência da questão identitária. Como é possível que um país com nove séculos de existência histórica continue a interrogar-se sobre a sua identidade? Se deslocarmos o olhar da questão da identidade para questões que muito nos preocupam, a da corrupção e do nepotismo, talvez encontremos uma solução para o enigma. O sociólogo alemão Norbert Elias chamou a atenção, em La société des individus, para o facto  da corrupção não ser uma questão racial, como muitas vezes surge no imaginário popular ou mesmo em certos discursos eruditos, mas a tradução do afastamento entre a organização do Estado e o nível onde se estabelece a identidade do nós.

O problema da identidade que assombra os portugueses - e os pensadores da identidade nacional - é o sintoma de uma outra coisa, o sintoma da ausência de um efectivo nós estadual. Para os portugueses o Estado é sempre o eles, ocupado por eles, algo que nos é estranho e, por isso, exterior. Mesmo que não se coíbam a ocupá-lo e de trabalhar nele, o Estado é sentido não como a emanação da comunidade portuguesa mas como um corpo estranho que temos de suportar e, se for possível, sugar até onde for permitido. O nosso nós é o das famílias, daí o problema da corrupção e do nepotismo. 

Isto revela uma outra coisa: a ambivalência da natureza do Estado em Portugal. Por um lado, ele é sentido na força da sua estranheza. Um Estado forte, quase sempre autoritário, uma excrescência tenebrosa no corpo da comunidade. Por outro lado, um Estado frágil sempre vítima da esperteza daqueles que lhe estão submetidos. Os portugueses temem e/ou exploram o Estado, mas nunca o levam a sério. Enganar ou explorar o Estado não são crimes ou sequer pecados veniais. Os deveres de lealdade são para com a família e os amigos. Mesmo quando se sente lealdade a Portugal, este é entendido como uma grande família e não como uma organização política estruturada em Estado. 

Os portugueses possuem uma forte identidade, mas essa identidade não é política mas familiar. Daí o contínuo questionamento sobre questões da identidade nacional. O que vale a pena pensar e explorar é o sentimento de estranheza que existe entre os portugueses e o Estado. A ideia de que o Estado sempre foi autoritário e por isso as pessoas protegeram-se não lhe reconhecendo de facto legitimidade é uma explicação. Mas não explica o efectivo não casamento (um divórcio implicaria a ideia de ter havido um casamento) entre os portugueses e a sua estrutura política. 

Existe a ideia de que somos descendentes daquele povo que habitava o Ocidente da Ibéria e que, segundo o General Galba, governador romano, não se governava nem deixava governar. Esse  suposto anarquismo explicará muito pouco. No entanto, o facto da frase ter sido, presuntivamente, pronunciada por um general ocupante talvez abra uma pista para explicar o afastamento entre os portugueses e o seu próprio Estado. Não terá sido o Estado português obra de uma elite política sempre sentida como estranha à comunidade? Não haverá, desde Afonso Henriques aos nossos dias, um conflito, quase de natureza étnica, entre as elites políticas e o povo? A que se deverá o contínuo não reconhecimento da legitimidade do Estado português pelos próprios portugueses?