sexta-feira, 9 de março de 2012

Razão hormonal



Possuo uma razão hormonal. Quando era novo, ansiava a revolução, um grande orgasmo colectivo, certamente na sequência de um dionisíaco gang bang, um exercício de destruição, para que a razão, triunfante na balbúrdia dos corpos esmagados, trouxesse um radioso clarear da madrugada. Durou pouco essa atracção pelo colectivo e pelas infelizes metáforas (de facto, verdadeiras catacreses) que a sua adoração impunha. Com o decorrer do tempo, tornei-me conservador. O vigor hormonal ia sendo outro e o exercício da memória crescia como uma sombra ao entardecer. Ser conservador é um acto de piedade para com o passado, uma forma de ser beato sem ir à missa, nem ter que confessar os pobres pecadilhos em que a vida nos enrola. 

O desejo do futuro, comandado por Eros, ou o amor pelo passado, uma infusão de Agaph, não passam – em mim, é bom nunca generalizar – de variações químicas provocadas pelo desconcerto hormonal. O meu problema – e o da minha razão hormonal – é que descobri agora, certamente por desatenção anterior, que a realidade não se compadece com o ritmo e o equilíbrio das minhas hormonas. Conserva e muda conforme lhe apetece, segundo ritmos hormonais próprios e inescrutáveis. A minha vontade de rasgar o futuro ou de solidificar o passado não passa de uma presunção irracional de um idiota que, como todos os idiotas, se tem em demasiada boa conta.