quarta-feira, 14 de março de 2012

Tudo uma questão de marca


Portugal, curioso país. Repare-se a distância que vai de Lisboa a Santa Comba Dão. Tanto o governo central como a Câmara de Santa Comba são governados pelo PSD. O governo de Lisboa é o último grito liberal que chegou cá, mas o presidente da autarquia beirã não vê problema algum em recorrer à "marca  Salazar" para promover o concelho. Que Salazar tenha sido um ditador e feroz iliberal, como agora se diz, ou que o seu regime tenha as mãos sujas de sangue pelos assassinatos políticos, ou que a liberdade tenha sido por ele pura e simplesmente suprimida, nada parece apoquentar este acérrimo defensor das oportunidades da sua paróquia. 

Este notável exemplo de espírito de iniciativa e de objectividade histórica deverá frutificar. Quando o PSD conquistar a câmara de Peniche, seria uma óptima ideia, para desenvolver as potencialidades da terra, usar a "marca forte de Peniche", criando mesmo um parque de diversões onde saudosistas e outros basbaques veriam pessoas a ser torturadas ou a viver atrás das grades. No dia que o PSD conquistar Beja, por outro lado, será uma óptima ideia utilizar de novo a GNR e dar uns tiros em camponesas grávidas. Eu sei que quase não há camponesas hoje em dia, e as que há usam a pílula, mas sempre se podem importar para as sessões de execução. A marca "um tiro em Baleizão" atrairá, por certo, inúmeros saudosistas, e execuções públicas, mesmo que com a aparência de conflito social, chamarão, se bem encenadas e publicitadas, muitos visitantes. No fim, em Peniche ou em Beja, poderão todos regalar-se com um copo de tinto "Memórias de Salazar". Tudo isto sempre dentro de "uma perspectiva objectiva e histórica", claro. Que não falte por esse país fora imaginação, o marketing fará o resto.