segunda-feira, 23 de abril de 2012

Marine Le Pen


A votação expressiva da senhora Le Pen, com os inevitáveis sinais perigosos que envia, não pode deixar de ser lida como o resultado das políticas que têm ocupado o poder em França e na Europa nas últimas décadas. A subida dos extremos (também Mélenchon teve um bom resultado), que valem agora um terço do eleitorado francês, é o sinal mais claro da falência da moderação e dos partidos que constituem o centro político francês. Não é impunemente - a não ser em Portugal - que se rasga o pacto social-democrata que vigorava tacitamente na Europa. Não é impunemente que se trata com ligeireza os problemas de integração de pessoas provenientes de culturas com valores radicalmente diferentes dos da cultura de acolhimento. Não é impunemente que se deixa alastrar o sentimento de desapossamento - e este sentimento é, curiosamente, partilhado por muito gente de origens bem diferentes - entre as camadas populares. 

Há nas elites políticas democráticas uma cegueira, para não dizer uma irresponsabilidade, para as realidades desagradáveis e que são difíceis de resolver ou mesmo de lidar com elas. Essas realidades tornam-se zonas de obscuridade onde os extremos se sentem à vontade. O problema principal, contudo, é que a zona obscura tende a crescer com os processos de globalização e a já eterna crise europeia. Ela é engordada pelas classes médias que tinham nascido no pós guerra e que agora são expulsas daquilo que por cá alguns tontos chamam zona de conforto. E quanto mais pessoas forem expulsas da zona de conforto maior é o rio onde a senhora Le Pen - e mais ela do que o senhor Mélenchon, como se viu - pode pescar. O Presidente eleito a 6 de Maio e os partidos moderados deveriam pensar muito seriamente por que razão um terço dos franceses opta por candidatos extremistas e populistas. A França não é aquilo que os franceses imaginam que ela é, mas na Europa a França é sempre um sintoma do estado de coisas.