sexta-feira, 13 de abril de 2012

O estrangeiro que fui

Salvador Dali - A Persistência da Memória

No início de uma das suas crónicas no Público, Pacheco Pereira recordava "uma frase muito mais lembrada do que o livro" (The Go-Between, de Leslie Poles Hartley) de que faz parte: o passado é um país estrangeiro, lá fazem as coisas de modo diferente. Apesar da persistência da memória, o passado nunca deixa de surgir ao olhar como uma território desconhecido. Talvez nessa terra façam as coisas de modo diferente daquele que está em uso na pátria do presente, talvez. Mas isso, para dizer a verdade, não me interessa. Não são os usos e costumes desse passado que me interessam, nem é a sua natureza estranha ou o sentimento de ir para o estrangeiro quando revisitamos, através da memória, as estações que configuram um passado.

Interessa-me o sujeito e não a paisagem, o viajante e não o território ou a geografia. Interessa-me o sujeito que fui e do qual a memória persiste em estabelecer uma ligação com aquele que sou. Esse sujeito passado, porém, não é menos estranho que o país do passado. Talvez eu sofra de uma patologia qualquer, mas quando leio descrições que outros fazem desse seu ser sujeito no passado quase só enxergo super-heróis, campeões de tudo, gente feliz por esse passado que a memória lhes devolve. A minha memória, porém, só me devolve um ser ridículo, risível, lastimável. O meu passado é para mim como aquelas fotografias onde nos descobrimos completamente ridículos e das quais sentimos  uma íntima vergonha. Olhado do presente, o meu passado atesta a minha natureza indiferenciada e plebeia. O meu passado não é uma tragédia (esta trata de gente nobre e superior, como Aristóteles sabia) mas uma comédia (coisa de gente inferior, segundo o Filósofo).

Quando penso no risível ser que está ligado a mim pela persistência da memória, nem pretendo supor que agora sou outra coisa. De facto, não me sinto ridículo, mas é apenas uma questão de tempo, suponho. De onde nascerá está risibilidade? Não tem a ver com o sucesso ou o insucesso. Quantas vezes são os sucessos a maior fonte de ridículo? O que me dá vontade de rir é o choque entre o desejo e a realidade. O desejo é sempre excessivo para a realidade que fomos. Entre o real e o desejável abriu-se uma fenda, e é nessa fenda que nos estabelecemos. Preocupados em não desaparecer no abismo, entretemos cada presente com a missão de evitar a queda e suportar os safanões da realidade e as sacudidelas do desejo. Instalados nesse lugar vazio, não fomos o que éramos nem o que desejávamos, mas apenas uma caricatura a esbracejar suspensa no vácuo. A caricatura e o ridículo, que encontro nesse sujeito que fui, nascem de uma tensão entre a realidade finita e mortal do meu ser empírico e o desejo de infinitude e de imortalidade. 

O presente, esta pátria que agora habito, é um território ambíguo. Por um lado, permite-me a crueldade de me ver como fui, mostra-me no meu ridículo e na minha natureza caricatural, mas ao mesmo tempo desvenda-me tudo isso como se tal pertencesse a um estranho, a um estrangeiro. Esta insidiosa forma de olhar é apenas o sintoma de que se continua no abismo e que o desejo e a realidade permanecem afastados. Dito de outro modo, a vida, pelo menos a minha, não passa de uma comédia e, lentamente - talvez pela escassez da inteligência -, vou descobrindo que a caricatura não é uma aparência de mim, mas a minha própria natureza ontológica. Eu estaria tentado a dizer que a caricatura é a verdade de cada um, mas isso seria ofender a moral e os bons costumes e envolver gente seriíssima na minha comédia. Para os outros fica reservado o heróico espaço da tragédia.