sexta-feira, 6 de abril de 2012

O lugar do mal



A política é para mim um fenómeno ambíguo. Por um lado, fascina-me desde os meus dezasseis anos; por outro, a intervenção nela, com uma breve excepção nos anos setenta, sempre me causou repulsa. Um fascínio teórico pelo fenómeno, uma repulsa prática pela intervenção. Esta repulsa indica, obviamente, a minha inadequação para a vida política. Compreendi isso ao ler Platão. Há uma oposição entre a vida política e a vida filosófica. Se nesta somos guiados pelo compromisso com a verdade, naquela a verdade não tem qualquer valor efectivo. Só interessa se fortalecer o poder ou ajudar a conquistá-lo. A falsificação da realidade é um exercício contínuo na política.

Não sou um adepto fervoroso do Rendimento Social de Inserção (RSI). Há argumentos a favor e argumentos contra, ambos deveriam ser bem ponderados. Contudo percebo o que está em jogo e qual a finalidade dessa medida. O objectivo político do RSI não é tanto salvar da miséria certo número de pessoas ou famílias, mas evitar uma fragmentação da comunidade nacional, prevenir um sentimento de exclusão motivador de ódio. O RSI visa uma certa paz social, com a qual todos ganham.

Os governos eleitos têm todo o direito de aplicar as suas políticas, inclusive na área do RSI. O que me choca é um discurso como o do ministro Mota Soares. Quando diz que o RSI está ligado não apenas a direitos mas também a deveres, isto parece do mais cru bom senso. Quem não assinaria por baixo? Mas quando especifica que entre esses deveres está o de procurar activamente emprego, não sei se tenho vontade de chorar ou de rir às gargalhadas.

Isto é uma falsificação absurda da realidade. Quando pessoas mais qualificadas do que os beneficiários do RSI não encontram trabalho – 15% de desempregados –, como se pode ter este tipo de discurso? Só os preconceitos ideológicos, o fechar de olhos para a realidade e a falta do mais básico sentimento de pudor e vergonha justificam palavras deste tipo. Uma sociedade que não consegue gerar emprego, um mundo económico manietado pelas opções do governo, do FMI e da UE, e o iluminado ministro acha que os mais fracos (independentemente da causa dessa fraqueza) têm o dever activo de encontrar aquilo que não existe. O fascínio que hoje em dia a política exerce sobre mim deve-se a uma certa necessidade de perceber como o mal funciona e toma conta do mundo. As palavras de Mota Soares são mais que um exercício de mentira ideológica, são uma demonstração de que a política é o lugar do mal.

Uma boa Páscoa para todos.