quinta-feira, 12 de abril de 2012

O paradoxo do avaliador

Edvard Munch - Nietzsche

O senso comum corrente - e lembremo-nos que, hoje em dia, o senso comum gosta de tomar a coloração da cientificidade - afirma e jura que devemos viver numa cultura de avaliação. A avaliação, nas nossas sociedades, tornou-se naquilo a que já chamei uma monomania, uma monomania social. Dito de outra forma, a cultura de avaliação é uma patologia das sociedades contemporâneas, sociedades incapazes já de pensar cada um dos seus princípios até às últimas consequências. Mas não é a avaliação uma forma de racionalizar desempenhos para reconhecê-los e compensá-los na justa medida? Em aparência, sim; na realidade, não. E a razão é simples: o fundamento último da avaliação é arbitrário e irracional.

Qualquer processo de avaliação funda-se, sem que disso se tenha consciência, no que poderíamos chamar paradoxo do avaliador: em qualquer processo de avaliação há um avaliador que não é avaliado. Imaginemos que um conjunto de avaliadores avalia um dado universo de pessoas. Por seu turno, esse conjunto de avaliadores é avaliado por outro grupo de avaliadores, e assim sucessivamente. Como o processo não se pode prolongar até ao infinito (e se se prolongasse seria irracional), há um momento em que um último avaliador não é avaliado. Todo o processo de avaliação supõe e está fundado, paradoxalmente, na não avaliação.

Qual o verdadeiro significado disto? Todo o processo de avaliação está construído sobre a ideia de infalibilidade - uma infalibilidade idêntica à do Papa na Igreja Católica - do último avaliador (pode ser um indivíduo ou um colectivo). Na verdade, está construído sobre a arbitrariedade desse último avaliador. Ora como esse último avaliador é o decisivo, toda o processo de avaliação depende da sua arbitrariedade, o que torna toda a avaliação pura e simplesmente arbitrária e irracional. Contrariamente ao que se quer fazer supor, a avaliação não é um processo de racionalização dos desempenhos, mas uma forma de impor uma arbitrariedade incontrolada e tida por infalível ou, dito de outra maneira, toda a cultura de avaliação é uma forma de ocultar o arbítrio e a irracionalidade com a aparência de uma razão processual e avaliativa. 

Quando a questão se coloca no âmbito da Igreja Católica, a infalibilidade papal faz todo o sentido, pois está em consonância com o mistério da fé. Contudo, quando se trata de sociedades que pretendem ser racionais e que exigem um comportamento racional dos seus agentes, o paradoxo do avaliador torna claro o carácter patológico da vida social contemporânea e a natureza contraditória dos seus princípios.