sábado, 28 de abril de 2012

Paul Cadden, o retorno da mimesis?

Paul Cadden - India

Serão estes desenhos a lápis o sintoma do regresso da arte à imitação da natureza? Há muito que não se pode falar de arte como uma unidade que se move, inteira e completamente, em direcção a uma mesma finalidade. A essa fragmentação do topos artístico deve aliar-se a complexidade do conceito de mimesis (imitação).  Só equivocadamente se pode ler o conceito aristotélico como mera reprodução da natureza. A imitação sempre foi uma forma de intensificar o real. E é isto que, segundo o Público, pretende Paul Cadden. A expressão utilizada não é intensificar o real, mas uma outra bastante interessante: intensificar o normal. Para o autor, isso significa carregar o impacto emocional.

Há todavia aí um jogo muito complexo que ultrapassa a dimensão da afectividade. Esta estratégia hiper-realista conduz a uma dupla mimesis. Uma imitação da natureza e uma imitação da fotografia. Se toda a mimesis é já uma refiguração e transfiguração daquilo que percebemos como realidade (veja a mimesis da acção na tragédia, segundo Aristóteles), esta dupla mimesis do percebido como real e fotografado como tal obriga o espectador e repensar o que considera real. Cadden propõe o conceito de normal. Intensificar o normal significa, para além da questão afectiva, um questionar ontológico e epistemológico das coisas. Que coisas se dão à nossa observação? Realidades ou normalidades? A afirmação kantiana de que nós não temos acesso às coisas-em-si mas apenas aos fenómenos recebe aqui uma nova confirmação. O normal é apenas aquilo que é corrente ou vulgar observar, mas isso não significa que esse normal seja a expressão da realidade em si. Intensificar, de forma hiper-realista, o normal é mostrar que ele é um campo dado à metamorfose do olhar, significa que cada imagem sensorial possui uma indefinição e uma plasticidade que a torna aberta. Este aparente retorno à mimesis só pode ser compreendido no âmbito desta consciência de que o normal não é o real, mas apenas uma definição estatística da forma como nós olhamos, na vida quotidiana, para as coisas.