quinta-feira, 5 de abril de 2012

Poema 35 - Quinta-feira Santa

São dias de tanta amargura, os céus negros,
Estrelas evadidas dos teus olhos.
Talvez o Senhor amanhã se entregue à morte,
Ou o teu amor arrefeça, entre os lírios
Apodrecidos na cruz laminada da noite.

As portas escancaradas deixam passar
Cães famintos que a rua declinou.
Enxames desolados polvilham as sombras
E tudo o que a memória guarda
Dissolve-se nos ladrilhos do esquecimento.

Nestes dias preferia o sóbrio silêncio,
Mas escasso é o poder herdado,
E não há anjo ou deus que olhe por mim.
Carrego, pedra a pedra, o destino precário,
Para me sentar no desvão do dever cumprido.