sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um caso exemplar



A escola da Fontinha, no Porto, abandonada há anos, foi ocupada o ano passado por um grupo de cidadãos para desenvolver o projecto Es.Col.A. Os dinamizadores tentaram chegar a acordo com o município, cumpriram a parte que este lhes exigiu, mas a câmara portuense, no lugar de cumprir a sua, decidiu despejar o projecto e fechar as instalações. Que fazia esse gente numa escola abandonada? Além de a recuperar, dedicava-se a uma séria de malvadezas: apoiava o estudo das crianças daquela zona deprimida do Porto, organizava actividades que iam do xadrez à música, passando pela leitura, artes marciais, etc., em conformidade com as necessidades da população local.

Faziam tudo isso sem subsídios do Estado ou do município. Criavam riqueza social, contribuíam para integrar as novas gerações na sociedade e evitar a queda na delinquência, e permitiam aos mais velhos o sentimento de pertença à cidade e a uma comunidade viva. Faziam ainda outra coisa horrorosa: mostravam que ter iniciativa era coisa boa, evidenciavam que trabalho e iniciativa geram riqueza, e sublinhavam que os cidadãos podem dirigir a sua vida sem estarem sempre dependentes do Estado.

A resposta da câmara portuense tornou claro o que as elites políticas entendem por liberalismo. A via liberal assenta toda ela na iniciativa dos indivíduos, na independência perante o Estado, no valor do trabalho. As elites políticas portuguesas, mesmo aquelas, como as do PSD, que se dizem liberais, não acreditam em nada disso. Acreditam que alguns podem ter iniciativa – e até são protegidos pelo poder da concorrência que o liberalismo defende – e que os outros, a turbamulta e a ralé, têm a função de estar à disposição de forma quase gratuita daqueles a quem o poder dá o direito à iniciativa. Quem não gosta, que imigre.

Não há presidente de câmara ou governante que tolere princípios liberais. É insuportável que as pessoas não dependam dos poderes, que sejam autónomas e ajam por si mesmas. O poder político, local ou nacional, mata tudo o que não controla e de onde não pode tirar apoio para os seus fins. Numa perspectiva liberal, não interesse se a iniciativa é privada ou comunitária, o que interessa é que essa iniciativa seja independente do poder, que seja livre. A nossa direita – para não falar da esquerda – odeia a iniciativa, odeia a independência, odeia a liberdade cívica, odeia o liberalismo. De súbito, o projecto Es.Col.A e o seu fim iluminam as raízes da nossa miséria: as elites políticas não suportam nem permitem a independência das pessoas. Um caso exemplar.