quarta-feira, 2 de maio de 2012

Downton Abbey


A cada um as suas telenovelas. Também não sou excepção. Não vejo muitas, mas tenho algumas de culto. A principal é uma alemã chamada Heimat - uma crónica da  Alemanha. Já vi as três séries saídas até agora, que vão desde 1918 até à queda do muro de Berlim. Aguardo, com expectativa, a continuação do trabalho do cineasta alemão Edgar Reitz, o Heimat 4. Julgo que nenhuma das séries está legendada em português, mas existem legendagens em inglês e francês. Outra série que segui com avidez foi In Treatment, onde era mostrado o trabalho de um psicanalista. Uma série notável que transformava em matéria romanesca os conflitos interiores dos pacientes e do próprio terapeuta. Passou, julgo, num canal por cabo. Também Berlin Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder, obrigou-me a estar especado frente ao televisor. 

Ontem vi o último episódio da 2.ª temporada de Downton Abbey. As duas temporadas abrangem o período que vai de 1912, precisamente após o naufrágio do Titanic, até ao início de 1920. Assiste-se à desagregação da era vitoriana. Não apenas com o choque proveniente do afundamento do Titanic, um produto do esforço prometaico da indústria e da tecnologia, mas também com o primeira Guerra Mundial, os equilíbrios sociais ingleses sofrem uma alteração radical, que podemos pensar como estando na origem das alterações sociais e culturais que abalaram o século XX. Em linhas gerais, a série retrata a vida de uma família da aristocracia inglesa, os Crawley, e dos seus criados. Uma imagem de harmonia de onde a conflitualidade está praticamente ausente, com exclusão de um ou outro problema provocado por um serviçal mais marcado pela a ambição pessoal. De certa forma, o que está retratado é o impacto dos grandes acontecimentos da história da época na vida de Downton Abbey, a moradia dos Crawley no countryside.

No entanto, o conflito de classes ou de castas não deixa de estar presente e gira em torno da figura de sir Richard Carlisle, um poderoso magnata da imprensa e noivo de Mary, a filha mais velha da família Crawley. A conflitualidade põe em jogo a visão paternal, educada por séculos de refinamento, da velha aristocracia e a frieza do burguês emergente, que dobrou a vida e o destino à sua força de vontade, ao seu espírito de iniciativa, à sua rapacidade e falta de piedade. A imagem bonançosa da aristocracia, por muito comovente que seja, não deixa de levantar ao espírito algumas questões. Em primeiro lugar,  quem não crê na eleição divina da aristocracia, não pode deixar de se interrogar se o carácter rapace, voraz e cruel com que a burguesia, na pessoa de Carlisle, é retratada não esteve também presente na formação dessa aristocracia. Em segundo lugar, não pode deixar de perguntar pelo que difere, essencialmente, entre a aristocracia e o terceiro-estado.

Se Downton Abbey não mostra a formação originária da nobreza, se a natureza inicial, voraz e cruel, dos grandes senhores está já apaziaguada e adoçada por um longo esforço de educação das maneiras, digamos assim, a série permite perceber o que diferencia o segundo estado, a aristocracia, do terceiro estado, a burguesia. Tudo se joga na figura do herdeiro. Do ponto de vista da aristocracia, o herdeiro é o continuador de uma tradição, de um ponto de vista cultural e de uma determinada prática de dominação social, cuja estabilidade residia no direito. A tradição não era apenas o exercício de um ponto de vista sobre o mundo mas uma estrutura sólida fundada na lei. Nas sociedades tradicionais, isso era o bastante.

O herdeiro burguês apenas herda bens materiais. Todo o resto terá de criar pela sua própria iniciativa. Apesar de existirem algumas linhagens de empresários, elas são incomparavelmente mais breves do que as linhagens aristocráticas. O motivo é muito simples. Numa sociedade de mercado, só a iniciativa, a capacidade de inovar, a vontade firme  podem conduzir ao sucesso. É verdade que, seguindo o exemplo da aristocracia, as famílias ricas tentam assegurar a transmissão das suas vantagens para os filhos. Isso, porém, pode não ser, e muitas vezes não é, suficiente. A lei, contrariamente ao que acontecia no Ancien Régime, não promove a estabilidade das linhagens burguesas, mas o conflito entre elas, a sua morte e substituição por novos protagonistas. O triunfo do terceiro-estado, o seu contínuo sucesso, deve-se a esta plasticidade e maleabilidade social. Não se trata de salvaguardar um conjunto de famílias, mas de uma atitude e um modo de vida. Qualquer um, e essa é uma outra vantagem das sociedades do terceiro-estado, pode ocupar um papel de destaque nesse universo, independente do pedigree. Basta que seja mais ousado, eficaz e eficiente no mercado global.

Esta diferença mostra por que razão a aristocracia acaba por se tornar mais compreensiva e tolerante com o mundo dos subordinados, o que a série exemplifica em lord Grantham, o chefe da família Crawley, ou em Matthew Crawley, o herdeiro. A crença na continuidade da linhagem - mesmo na sua eternidade - dá-lhes um tempo suficiente para se tornarem compreensivos. O burguês está, em cada momento, ameaçado pela morte, isto é, a derrota no mercado, a falência e o empobrecimento (a leitura de Os Buddenbrook, de Thomas Mann, ajuda a compreender a natureza das coisas). Um nobre arruinado não deixa de ser um nobre. Um burguês que empobrece volta à sua condição originária de indigente ou quase indigente. Ele sabe isso e daí a sua natureza implacável, a frieza das suas opções, a crueldade que impõe à existência dos outros seres humanos, tudo características de sir Richard Carlisle.