quarta-feira, 2 de maio de 2012

A liberdade da servidão

Júlio Pomar - O Almoço do trolha

Os acontecimentos de ontem nas lojas da cadeia Pingo Doce são interessantes como sintoma do estado moral a que chegou a nossa sociedade. A sedução da cadeia de distribuição, a resposta dos trabalhadores e a avidez dos consumidores constituem uma trilogia onde uma terrível doença social se manifesta. Em todos eles a decisão por adquirir uma certa vantagem económica foi fruto da sua liberdade e da liberdade existente na nossa sociedade. O interessante de tudo isto está, porém, nesse exercício de liberdade.

A ausência de liberdade era vista como fonte de corrupção do carácter. Este era corrompido pela servidão a forças que nos eram estranhas. Em 1998, o sociólogo norte-americano Richard Sennett publica um estudo sobre as consequências pessoais do trabalho na era do novo capitalismo. O título do estudo é sintomático das conclusões a que chegou: A Corrosão do Carácter

O que os acontecimentos do Pingo Doce nos mostram, porém, é que a corrosão do carácter não está numa força que nos seja estranha mas, como há muito o sabia a Igreja Católica, no nosso próprio desejo. Submetidos e vergados ao desejo de consumo, usamos a liberdade para legitimar a própria servidão. E é nesse desejo de ser servos dos nossos próprios desejos - tanto daqueles que nascem das necessidades básicas como daqueles que são fruto da manipulação publicitária - que se funda um carácter corroído.

A cadeia Pingo Doce não brinca em serviço. Não trata apenas de negócios - a promoção e as vantagens que deu aos seus trabalhadores poderiam ocorrer em qualquer outro dia do ano -, ela não descura a luta de classes e a questão ideológica. As entidades patronais nunca descuram a luta de classes. Que maior humilhação para os trabalhadores em geral do que aquilo que, pela liberdade dos agentes, se passou no dia 1.º de Maio? 

Os mais ingénuos, ou os mais perversos, poderão dizer que ninguém foi obrigado a nada. Claro que fisicamente, ninguém foi obrigado a nada, mas o condicionamento das consciências é muito mais subtil do que o mero exercício da força sobre a pessoas. Estimular o desejo é uma ágil e eficiente maneira de matar a liberdade e corroer o carácter, aparentando defender o livre-arbítrio. Mas não é esta a essência da sociedade em que vivemos?

O sindicalismo e os partidos de esquerda sublinham a luta colectiva em prol da emancipação e da dignidade dos homens. Terão as suas razões. Duvido, perante as forças em presença, da eficácia. Hoje em dia, prefiro ouvir aquilo que a Igreja diz: o principal é aprender a dizer não a si mesmo. A liberdade nasce da resistência a si e a emancipação começa com a libertação dos seus próprios desejos e idiossincrasias. 

Chegou a altura de recomeçar a escutar certas palavras como tentação. Nós vivemos numa sociedade cuja essência é a tentação. Perceber a tentação como caminho para a escravatura é compreender a raiz daquilo que nos submete. Só a partir desta compreensão, ganha sentido e força a transformação colectiva da cidade dos homens.