sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lições gregas



Anda meio mundo ufano com a vitória de Hollande em França. Não é má notícia, mas os portugueses tirariam maior proveito em estudar o caso grego. A França pertence ao centro da Europa, a um universo do qual não fazemos parte, a não ser como fornecedores de mão-de-obra. As coisas são o que são. A Grécia é como nós um país periférico e do Sul, um país que percorreu mais depressa o calvário da dívida e das políticas de austeridade.

A primeira lição é a da fragmentação do corpo eleitoral. Menos de um terço dos eleitores (e só 65% votaram) deram o seu voto aos dois partidos do arco governativo. O sistema político grego tornou-se muito complexo, com 32 partidos a concorreram às eleições e sete a elegerem deputados (ainda três a ficarem à porta do parlamento). A diferença entre o partido mais votado e o que elegeu menos deputados não chega a 13%. A tradicional divisão esquerda e direita tomou contornos novos e mais complexos, onde a divisão pró-troika e contra-troika tem um papel importante, a que se adiciona a divisão entre pró-europeus e contra-europeus. Um panorama bizarro.

A segunda lição diz respeito ao crescimento dos extremos. O partido de extrema direita, Aurora Dourada, que em 2009 valia 0,29% vale agora 6,97% e 21 deputados, e faz já troar a voz e as botas cardadas. Surgiu uma nova organização de direita anti-troika com 10,6% e a esquerda à esquerda dos socialistas, três partidos, vale agora 31,37% (em 2009, valia 12,14%), quase tanto como os partidos da governação, que passaram de 77,4% dos votos para 32%. A situação grega é perigosíssima para os gregos e para a Europa. À fragmentação política adiciona-se uma fractura no consenso global necessário para o funcionamento da democracia.

A terceira lição liga-se às causas da implosão. Os gregos perceberam que as elites governantes, de direita e de esquerda, foram absolutamente irresponsáveis, ao conduzirem a situação política e económica a um beco sem saída. Este panorama recebeu, porém, a pior das respostas: a penalização moral dos gregos através do empobrecimento abrupto das populações. A Grécia, como Portugal, precisa de rigor na gestão das contas públicas. Mas esse rigor precisa de tempo para que a alteração das políticas não signifique uma catástrofe inominável. A política de austeridade forçada significou que esse tempo não foi dado aos gregos nem a nós. A catástrofe grega já chegou. Esperemos que as eleições na Grécia ensinem alguma coisa à União Europeia e ao governo português, adepto incondicional da austeridade e do rápido empobrecimento dos portugueses.