sexta-feira, 4 de maio de 2012

Manha e expediente


(...) Sou pois Algarvio, isto é filho lá das terras que estão mais ao Sul de Portugal, formando certa Província com a alcunha de Reino, que pela natureza do seu clima poderia produzir muitos géneros de ambas as índias, se bem governados tivéssemos tido a ventura de ver prosperar a nossa indústria, e se o ouro do Brasil nos não tivesse metido nos ossos a mania de ser ricos sem trabalhar, assemelhando-nos aos campos sem cultura aonde só medram plantas estéreis (Guilherme Centazzi, (1840). O Estudante de Coimbra. Lisboa: Typographia de Antonio José da Rocha, pp. 9-10).

A disputa sobre o pai da literatura moderna portuguesa - se o Herculano ou se o Garrett - sofreu um inesperado volte-face. Afinal, nem um nem outro. Por obra e graça de Pedro de Almeida Vieira, descobriu-se que o pioneiro é o médico Guilherme Centazzi, com o romance, datado de 1840 e 1841, O Estudante de Coimbra - ou relâmpago da história portuguesa desde 1826 até 1838. Este autor e esta obra tinham sido completamente esquecidos, não se encontrando qualquer referência a ambos nos estudos literários. Segundo Pedro de Almeida Vieira, nem sempre foi assim. Um artigo do intelectual e escritor escocês Thomas Carlyle, para a Fraser's Magazine, fazia uma resenha, em 1848, da literatura portuguesa. A atenção central era dedicada a Centazzi e ao seu romance, "o melhor espécime da presente escola das belas letras portuguesas". Por agora, nem a disputa sobre o pai do romance moderno português nem os motivos do esquecimento nos interessam.

Queria apenas chamar a atenção para a citação referente às duas primeiras páginas desse primeiro romance português. Dois temas emergem de imediato: o mau governo da nação e a esterilidade da riqueza em Portugal. Cento e setenta e dois anos passados, ainda não nos livrámos do mau governo. Cada novo gabinete é uma reencarnação do modelo pelo qual optámos há muito. Governar mal o país não é um acaso, mas uma tradição verdadeiramente sólida, que parece não ter fim à vista. O dinheiro fácil, como o ouro do Brasil, é outra tradição nacional. Enriquecer sem trabalhar é um exercício ao qual os portugueses - isto é, alguns portugueses, pois a maioria não sai da indigência - se entregam com contumácia. A última encarnação do ouro do Brasil foram os fundos da União Europeia, um verdadeiro bodo aos manhosos. Todas estas riquezas foram inimigas da nossa indústria, quer dizer, do nosso engenho, destreza, diligência e empenho. O pior que poderia acontecer, agora que os fundos começam a acabar e que a esperteza saloia das elites políticas e económicos nos precipitou na pobreza, seria a descoberta de petróleo em larga escala no nosso território. Mais uma vez, não seriam as pessoas industriosas que venceriam, mas os cavalheiros de indústria, aqueles que do ouro do Brasil aos fundos comunitários enriqueceram com manha e expediente. É com a denúncia deste estado de coisas que começa o romance moderno português.