quinta-feira, 31 de maio de 2012

Missa Pro Defunctis (IX)


9. Sequentia: v. Recordare

Tudo se cala, a luz e a rosa pálida.
A flor no sono breve cai e, se canta,
Escuta a vida num murmúrio amargo
E sem descanso, em manhã sombria.
Fosse agora meio-dia, a memória,
Tão leve e solta, no vagar da tarde,
Em ti diria o que ficou da vida:
A lua, o sol e aquela flor cansada,
Sem cor nem pétalas, apenas rosa
De seda azul em rio de água ateada.

Deito-me no divã e deixo correr
Palavras e memórias, uma lágrima
Furtiva, o crime jamais meditado.
Escavo em mim o súbito desejo,
E descubro maldade até na flor,
Que me mostra beleza no que vejo.
E toda a minha vida está no espelho,
Ergo-me,  saio porta fora e calo
A dor que me atormenta e dela faço
O palácio nocturno onde me deito.

Canta em vigília, abandonado e cego,
Canta, na infância por haver, o ruído
Vindo da serra, vento frio a arder,
Cântico escuro na memória preso,
As mãos cansadas de mulher zelosa.
Se recordares o cinzel e a cruz,
As noites lêvedas de frutos e água,
Penas e dores no jardim queimado
Pelo terror de uma folha a cair,
Se recordares, quem em ti será?

A queda incendiada pelos anos,
O vagar da memória nos dias de hoje,
As portadas que se abrem, logo fecham,
Ao ritmo das marés, da lua inquieta.
Tudo está calado, o dia e a noite,
A praia da tua infância, as janelas
Que deitavam olhares para a vida,
Ou descobriam na morte a força frágil
Da névoa na manhã dos dias fugazes.

Desceu do céu um pássaro, silêncio.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.