terça-feira, 15 de maio de 2012

Missa Pro Defunctis (VI)

6. Sequentia: ii. Tuba, mirum

Oiço a voz cansada e pálida da Terra,
O murmúrio das águas sob o impulso do coração.
Das janelas, avistam-se procissões,
Homens e mulheres caminham sem destino,
E gritam na tarde ao som dos foguetes:
Das mãos se desprendem, ferem os céus,
E voltam para a Terra, incendeiam searas,
Calam na boca gritos, dispersam aves,
A multidão perdida e ausente dos crentes.

O gemido de dor, ali aceso, abre-se
Para um jardim de plantas bravias, agora secas,
Batido pelo vento da serra, vento de fogo,
A crepitar na espessa bruma do dia.
Do chão sobe um ruído de helicópteros,
Suspensos no ar, presos na gravidade,
Habitados por gente desfigurada,
As faces translúcidas, o sangue aos borbotões,
E os dentes descarnados, canas cortadas,
De raízes minguadas e feridas pelo sal.

Uma fila de homens de toga, negra toga os veste,
Caminham inclinados para a frente,
Murmuram pequenas palavras quase sem sentido,
Amaldiçoam as árvores que cobrem a floresta,
E suspiram pela chegada da cólera ou da peste,
Sonhando com bubões pelas virilhas,
Gânglios a intumescer se a tarde cai,
Para rebentar mal chega a noite,
Com um ruído de tambores pelas ruas
E anúncios a desodorizante na televisão.

Cantam! Vozes trementes elevam-se aos céus,
E as nuvens enegrecem, sempre mais compactas,
Paredes de chumbo suspensas dos astros.
Um relâmpago corta a planície
E as vozes calam-se no ardor da cidade.
Aqui e ali os carros chocam, vibram por momentos,
E suspendem para sempre a curta viagem.
Um zumbido vem de dentro da terra,
E nos céus os anjos dormem presos na eternidade.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.