domingo, 20 de maio de 2012

O dragão e a crise

Elmer Bischoff - Dragon (1948)

A actual situação na Europa faz lembrar as várias lendas sobre o dragão que S. Jorge matou, libertando assim a espécie humana de uma terrível e incompreensível opressão. A analogia não está no facto de se ter encontrado um novo cavaleiro capaz de enfrentar a monstruosa situação em que mergulhámos, mas no que há de terrível e de incompreensível na opressão que cada vez mais europeus sentem sobre as suas vidas. Se o terrível se percebe muito bem, pois é sentido como diminuição das possibilidades das pessoas, sentido como empobrecimento económico, já a incompreensibilidade da situação é ela mesmo incompreensível. São tantos os comentadores, analistas e cientistas sociais, políticos e económicos a proferir oráculos e a ler no voo do monstro que deveríamos todos ter uma clara compreensão do que se passa. Mas não é assim.

As partes que se enfrentam no tabuleiro ideológico estão todas elas presas à sua história e aos seus anseios e aspirações. A memória e a expectativa, se trabalhadas pela simplificação das ideologias, tornam-se factores perturbadores da produção de um conhecimento útil do dragão que nos afronta. Há duas narrativas, interligadas entre si, que talvez estejam a ocultar a visão do problema. Em primeiro lugar a crise das dívidas soberanas; em segundo, a crise do Euro ou da zona euro. Haverá uma crise das dívidas soberanas ou múltiplas crises de múltiplas dívidas soberanas, exigindo cada uma delas produção de conhecimento e terapias diferenciadas? Por outro lado, haverá uma crise do Euro ou múltiplas crises enfrentadas por sociedades diferentes ao lidar com a moeda única? Esta pluralização dos problemas exigiria um olhar contextualizado para perceber não só como se chegou onde chegou, mas para encontrar soluções locais aceitáveis e não monstruosas. A tese que se ensaia aqui é a seguinte: a resposta europeia está errada não porque a Europa não tenha uma política global para responder à crise, mas porque a tem, não tomando em consideração as particularidades e propondo soluções globais para situações particulares diferenciadas. 

A formação global das respostas ao monstro precisa de ser flexível e tomar em consideração as particularidades de cada paciente. Estas particularidades têm relação com a história - quase diria a história clínica - de cada país europeu, mas também com o momento actual de adaptação a duas novas situações que se têm vinda a propagar como poderosos vírus. A globalização financeira e os limites do planeta para sustentar um tipo de economia fundada na intensificação desenfreada da faculdade de desejar. O que é importante perceber é que a resposta global da Europa só fará sentido se ela contiver as particularidades que a constituem, com o seu passado e os múltiplos modus operandi determinados por tradições diversas, bem como a consciência de que os limites do consumo e da vida voltada para esse consumo terão de ser encurtados, talvez draconianamente. Quando se discute, por exemplo, o aumento da produtividade, estaremos a discutir o problema certo? Nas narrativas vigentes - à direita e à esquerda - trata-se sempre de ser mais produtivo, mais eficiente e mais eficaz. Será, porém, isso que está em jogo? Não é isso que dá vida e alimenta o dragão? Chegou a altura de olhar para os locais e compreender como eles sofrem o impacto do global, para encontrar estratégias de sobrevivência.

Muito bem, dirá o leitor. E depois perguntará: mas não é isso o que se está a passar, a actual política europeia não é a estratégia de sobrevivência de um modo de vida na Alemanha à custa do empobrecimento  global dos seus parceiros? Se assim for, coisa da qual não tenho a certeza, teria chegado a hora de deixar a Alemanha entregue a si mesma. Se todas as partes fizerem um esforço intelectual para perceber isto, talvez comecem a olhar paras as múltiplas realidade que têm à frente dos respectivos narizes, talvez haja uma possibilidade da Europa, Alemanha incluída, encontrarem um caminho.