segunda-feira, 28 de maio de 2012

O fim do paraíso terrestre

Fernand Léger - Adán y Eva (1935-39)

Se há uma coisa que a minha geração assistiu efectivamente, essa coisa foi a morte das utopias sociais e políticas. A modernidade foi generosa, desde o seu início, na produção de utopias. A tentativa de as levar à prática, enraizando-as no solo da realidade, no século XX, foi a confirmação do decreto divino que nos expulsou do paraíso terrestre. Não há na Terra paraíso para onde voltar. Eventualmente, os homens podem sonhar e produzir sociedades mais ou menos ricas, mais ou menos livres, mais ou menos justas, mas não está nas suas mãos produzir um paraíso na Terra. 

Na Terra, as nossas relações serão conflituais, os mais fortes tentarão, insaciavelmente, devorar os mais fracos, e nenhum futuro nos espera cantando. Quem quiser música vá a um concerto. A realidade não canta. Os efeitos deste acontecimento são interessantes. Libertas da utopia de um paraíso terrestre, razão e imaginação podem retornar a imaginar e a esperar o paraíso celeste. Talvez a anunciada morte de Deus tenha sido uma notícia que carecia de confirmação. Por outro lado, ao nível da realidade política e social, as mesmas razão e imaginação, perdida a atracção utópica, ficam mais livres para os duros conflitos pela justiça e pela liberdade, sabendo que qualquer vitória é sempre precária. O fim das utopias foi um grande acontecimento.