terça-feira, 1 de maio de 2012

O primeiro de Maio


A Revolução Industrial não foi efectivamente um episódio com princípio e fim. Perguntar quando é que o processo ficou «concluído» é absurdo, porquanto a sua essência foi que, a partir de então, a norma passou a ser a mudança revolucionária. O processo ainda está em curso. (Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções)

O 1.º de Maio é o resultado da Revolução Industrial. Foi ele mesmo, durante muito tempo, pensado e vivido como o dia simbólico de uma alternativa de sociedade àquela que a industrialização e o capitalismo produziram. Essa crença foi alimentada durante décadas pelo equívoco soviético. Desfeito este, podemos hoje em dia olhar mais claramente para a realidade. As reivindicações do quarto estado - chamemos-lhes trabalhadores ou proletários - são muito pouco revolucionárias. Elas visam conservar um módico de dignidade, procuram parar o desenvolvimento revolucionário da economia e da sociedade. Daí  seu interesse.

A sociedade saída da Revolução Industrial e o capitalismo são essencialmente revolucionários. A inovação tecnológica e a competição nos mercados são o centro desse processo revolucionário. Poder-se-ia dizer que o capitalismo é, devido ao conceito de revolução permanente, trotskista. Por que razão o terceiro estado - ou a burguesia, noutra linguagem - é por natureza revolucionário e os outros estados não? Porque não há qualquer ordem que ele respeite a não ser a da iniciativa individual. Essa iniciativa visa perfurar a ordem dada num certo momento histórico para se instalar nela. Não hesitará. Vai inovar, modificar as regras, romper com tradições, modos de vida e de pensar. A livre-iniciativa, essência do espírito capitalista, é o motor de alterações radicais nos mercados e, concomitantemente, na sociedade. O capitalista inovador quer sempre uma nova ordem, aquela onde ele tem um lugar. É uma questão de vida ou de morte.

A velha aristocracia vivia pegada a uma ordem que pretendia eterna e decorrente de uma história imaginada que se perdia nos confins da memória. A inovação e a revolução, económica ou social, só a poderia conduzir à perda. Veja-se a tragédia da aristocracia francesa depois da Revolução de 1789. Veja-se o destino da infeliz e sempre precária e débil aristocracia portuguesa com o liberalismo do século XIX e o fim da Monarquia no início do XX. Resta o quarto estado, o mundo dos trabalhadores. Serão eles revolucionários como era costume considerá-los? Hoje percebemos que não, percebemos que o seu destino é muito semelhante ao das velhas aristocracias. A cada momento, devido às revoluções tecnológicas e científicas, uma quantidade assinalável de trabalhadores torna-se obsoleta. A dinâmica revolucionária não pertence ao quarto estado. O que ele pretende é o congelamento da sociedade num ponto onde seja poupado ao sofrimento. A sanha revolucionária dos ditos empreendedores, porém, não lhe dará descanso.

Haverá alternativa à revolução permanente do capitalismo? Os regimes aristocráticos e os regimes socialistas - quanto nestes regimes não era uma emulação do regime aristocrático? - mostraram-se, no decurso dos últimos dois séculos, impotentes para fazer frente à nova ordem burguesa do mundo. Emancipada da tutela, a liberdade de iniciativa dos indivíduos dificilmente volta a uma ordem onde a tradição é mais importante que a iniciativa. Esta é uma bomba atómica que não deixa pedra sobre pedra. O sofrimento, a dor, a perda, a erosão do significado da vida humana são-lhe indiferentes. Na verdade, o que alimenta a iniciativa do terceiro estado é o desejo das suas vítimas. Eles produzem e distribuem aquilo que os desejos dos homens reivindicam. O triunfo do terceiro estado radica todo aí, na exploração eficaz e eficiente do desejo que nos habita e consome. Este desejo é o combustível que alimenta a livre iniciativa e a permanente revolução económica.

Lembrar isto no dia de hoje não é um contra-senso. É olhar para a realidade tal e qual ela é, pondo de lado aquilo que desejaríamos que ela fosse. Libertar-nos de ilusões servirá para quê? Certamente que não nos ensinará que o 1.º de Maio é um dia revolucionário, pese a história da luta pelas 8 horas de trabalho, em 1886, em Chicago. Mas é um dia onde o sofrimento social pode sair à rua e mostrar a sua face, mesmo que os media, devidamente doutrinados, domesticados e comprados, odeiem e desprezem a face sofrida dessa gente. Gente feia e sem glamour. É o dia onde as injustiças que os homens, ao longo da história, fizeram aos homens se tornam patentes. Já não é pouco. Gostaria que houvesse alguma coisa de bom para anunciar. Eu não tenho e julgo que não há. Ainda não bebemos o cálice até ao fim e ainda não fizemos a experiência total do que significa a liberdade de iniciativa. Esta ainda é um enigma, uma verdadeira esfinge que não encontrou um Édipo à sua altura.