sexta-feira, 22 de junho de 2012

Cartões de crédito Karl Marx



Há dias o jornal ionline noticiava que o banco alemão Sparkasse Chemnitz tinha lançado um cartão de crédito com a reprodução do busto de Karl Marx, o pai fundador do comunismo. O banco alemão não virou comunista, continua profundo adepto do mercado. Como o mercado – isto é, as pessoas que o compõem – em que opera vive nostálgico dos tempos da República Democrática Alemã, o banco tomou uma decisão racional. Um cartão de crédito que, ao simbolizar o passado comunista, chama muita gente a abrir conta.

Um leitor mais entusiasta poderia ver neste acontecimento o prenúncio de uma reviravolta política no mundo, com as pessoas a virarem os corações para o vermelho. Pura ilusão de óptica. A iconização de Marx como agente de vendas de um banco é o sinal claro e definitivo da sua morte política (não da sua morte como pensador dos problemas económicos, sociais e políticos). Se o comunismo e as ideias marxistas representassem um perigo efectivo para a estabilidade capitalista, nenhum banco se atreveria a fazer o que Sparkasse Chemnitz está a fazer.

Há duas coisas que podemos aprender, ou recordar, com este caso. A primeira é que o mercado está aberto a tudo. Desde que se possa vender e comprar livremente, praticamente não há entraves. De Jesus Cristo a Che Guevara, passando por Lenine ou Marx, talvez a própria mãe, se não der prisão. Desde que sirva como mercadoria lucrativa, tudo pode tornar-se em bem transaccionável. Deste ponto de vista, o mercado não é ideológico. O comunismo, se servir para ganhar dinheiro, é óptimo para os mercados. Dirá o leitor que estou a exagerar. Não estou. Os mercados não estão nada preocupados com o comunismo chinês. Pelo contrário, são adeptos incondicionais. O verdadeiro perigo de uma sociedade de mercado está, porém, aqui. A desideologização dos mercados leva-os a aceitar as piores práticas políticas e sociais desde que o mercado funcione.

Ligado a isto está a completa ausência de princípios. Melhor, a redução de todos os princípios a um único: é bom aquilo que tem valor no mercado. O bem fica reduzido ao lucrativo. Quando certos pensadores de direita ligam a economia de mercado à democracia política estão pura e simplesmente a dizer uma mentira. Os mercados só estão interessados na democracia política e no respeito pelos direitos humanos se isso for lucrativo. O seu amor pelo regime totalitário chinês ou pela ditadura de Pinochet e o medo terrível que têm tido da vontade democrática dos gregos bastam para demonstrar a tese.

Pobre Karl Marx. De autor de O Capital passou a vendedor de capital.