sábado, 9 de junho de 2012

Comandante e fiel de armazém

Lyonel Feininger - Barcos (1917)

Ó Capitão! meu Capitão! a nossa terrível viagem está feita,
O barco cruzou cada tormenta, alcançámos o prémio desejado,
O porto está próximo, oiço sinos, o povo exulta,
Enquanto olhos seguem a quilha segura, o sinistro e audacioso navio;
Mas ó coração! coração! coração!
Ó as gotas vermelhas do sangue
No convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.
                                                           (Walt Withman, Ó Capitão! Meu Capitão. Tradução minha)

No post Do poder pastoral à arte de marear, pensou-se o fim da compreensão do exercício do poder como prática do pastorado. Os rebanhos e, concomitantemente, os pastores precisam da solidez da terra. Mesmo quando Moisés conduziu, no processo de emancipação da dominação egípcia, o povo judeu pelo Mar Vermelho, não foi por água que o levou, mas por terra seca pela intervenção divina. O poder pastoral, tal como o pensa Michel Foucault, está, desta forma, entretecido com a solidez territorial. Como vimos, a situação geopolítica mundial alterou-se drasticamente a partir da Queda do Muro de Berlim. Este acontecimento não marca apenas o fim do devaneio comunista, mas também a libertação do mundo do espartilho da Guerra Fria, o que significou a emergência de novos e decisivos actores como a China, a Índia, a Rússia (liberta dos sovietes e da ideologia marxista) e o Brasil, bem como, a outro nível, o Islão. Ao mesmo tempo, o processo de globalização geral da economia que, de certo modo, tinha sido interrompido em 1914 (cf. Jeffry A. Frieden, Global Capitalism - Its Fall and Rise in the Twentieth Century), foi retomado e intensificado, de tal forma que as relações interpessoais e institucionais se fundiram, criando aquilo a que Zygmunt Bauman (Liquid Modernity) chamou modernidade líquida.

No post referido aventava-se a possibilidade de um retorno à metáfora grega do governante como comandante (ou capitão) de navio. O poema de Withman, uma homenagem a Lincoln assassinado, mostra algumas das virtudes do comandante: cruzar as tormentas, fazer a viagem e chegar a bom porto. Podemos dizer que vivemos num mundo tormentoso e que saber cruzar as tempestades é um dos elementos fundamentais da arte de governar. Perante o perigo de naufrágio, o capitão deve saber o momento em que terá de deitar uma parte da carga ao mar para que a viagem prossiga. É isso que faz, por exemplo, o actual governo ao insistir para que os portugueses emigrem. Está a deitar carga ao mar. Também é verdade que a metáfora da viagem é central na situação geopolítica actual. Governar um povo ou uma nação é conduzi-la numa viagem que vem do passado e se dirige para o futuro. Até aqui o modelo do comandante de navios parece adequado para perceber o governante e a acção de governar. O principal problema está na inexistência de porto de chegada. Não há nenhum porto à espera do navio, não há uma meta que dê sentido global à acção política, uma causa final que oriente o timoneiro, a tripulação e os passageiros. O socialismo, a liberdade, o império, a glória do governante ou a fama de um povo, tudo isso se tornou para os ocidentais - e especifico os ocidentais, pois isso pode ser diferente para outros - algo destituído de sentido. 

Viajamos apenas porque essa é a natureza das coisas. Viajamos para ficar onde estávamos - embora tenhamos que afundar alguns para evitar o naufrágio. Esta é a nova situação. Não há um porto, apenas a viagem interminável. Percebe-se a razão porque a metáfora do governante pastor perdeu efeito. O pastor tem de dar conta de todas as ovelhas. O comandante do navio sente-se no direito de, ao transformar os passageiros em pura carga - isto é, em mão de obra ou mercadoria, de se libertar de uma parte desnecessária e perigosa para a viagem sem fim. O pastor foi substituído pelo comandante de navio. Isto significa que a situação dos passageiros - e até de parte da tripulação - está em constante escrutínio e o seu estatuto de cidadãos não lhes garante um lugar, desconfortável que seja, nesta viagem sem destino e sem sentido. A virtude do governante passa por assegurar a ordem e evitar motins, pequenos que sejam, como os que se têm dado na Grécia, para que o barco não balance. De resto, que cada passageiro trate de si mesmo, que adquira por si a arte de se manter na viagem. Os passageiros devem tornar-se leves (cf. toda a cultura do light) e ágeis (flexíveis), fundamentalmente devem ser razoáveis e dotados de um senso comum adaptativo à viagem. Caso contrário, a nova arte governativa manda deitá-los borda fora. 

A arte de marear significa então que o governante, o comandante do navio, tenha claro que não há porto onde chegar, que não há um momento de descanso para retemperar as forças em terra, que a viagem é interminável e sem destino. Significa também que há que saber manter a disciplina dentro do barco, evitar motins na tripulação e revoltas nos passageiros. Por fim, precisa de saber, a cada momento, qual a carga que pode transportar e qual tem de ser deitada borda-fora. Num mundo liquefeito como o actual, o  governante é um misto de comandante de navio e fiel de armazém. 

Quando alguns, como Pacheco Pereira, vituperam o actual governo por este ser insensível, de agir sem empatia para com as vítimas, não percebem aquilo que mudou. O pastor tinha um interesse específico no rebanho e este sentia nele não apenas um chefe, mas um aliado protector. O novo governante, esse misto de comandante de navio e fiel de armazém, apenas se interessa pela viagem. Os tripulantes são considerados apenas quando cumprem a função. Fora disso tornam-se passageiros, e estes são um peso que há que limitar. É isto que está na base do misterioso alheamento político das pessoas. É isto que explica a votação nos partidos fora do sistema. As pessoas continuam a sonhar com o bom pastor. O que as pessoas não percebem é que já não são cidadãos, que o rebanho foi dissolvido. São mão-de-obra, mercadoria, carga que o navio pode ou não suportar. O papel do comandante/fiel de armazém é manter o navio na viagem e gerir a carga que nele cabe. Começa assim a desenhar-se uma ruptura radical entre governantes e governados. Na prática ela já existe, só que os governados ainda não tomaram consciência do facto. Mas isso será matéria para um outro post.