terça-feira, 12 de junho de 2012

Missa Pro Defunctis (XII)

12. Offertorium: i. Rex gloriæ

A promessa feita a Abraão e sua descendência:
Os dias luminosos sobre os prados,
Vento suave nas ruas da cidade, a limpar miasmas,
O silêncio das praças desertas, cobertas de flores,
Sinais de paz trocados entre irmãos desavindos.
Onde a memória de tudo isso?
Onde o olhar de Abraão, a face de Sara?
Onde a esperança de Orfeu no buraco infernal?

Sara tinha noventa anos e Abraão amava-a,
Eurídice era jovem, Orfeu impulsivo,
Tudo se perdeu no desejo sombrio do amor.
Os anjos deixaram de falar aos homens.
Juntam-se agora nas praças e vão de bar em bar,
Bebem e tumultuam, lançam fogo de granizo, riem.
Ébrios, cantam pelas ruas, tocam trombetas,
Esmurram transeuntes e apalpam as pernas,
Brancas e suaves e sedentas, das raparigas.
Caminham e nada sabem de Abraão ou de Orfeu.
Esqueceram a dor de Sara, a morte de Eurídice,
E preferem cerveja reles e tremoços,
De que cospem, enlevados, as cascas para o chão.

D. Carlos ali tão morto e a sua glória,
Maior que a de Abraão e de Orfeu,
Vive no cano da carabina misericordiosa, assassina.
Os anjos abandonaram-no ao frio destino,
Aos gritos da rainha. O rei tão morto – rex gloriæ 
Resplandece contra o céu de Fevereiro,
Enquanto Abraão conta os dias da sua vida,
Os filhos da sua geração.
Glória, glória, nasceu Isaque,
Manuel II caminha para o trono,
Doem-lhe as costas, a cabeça, uma girândola de fogo,
Onde a lira de Orfeu entoa o último lamento:
Doce Eurídice, sombra gloriosa leva-me para o exílio.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.