terça-feira, 5 de junho de 2012

Narciso e Pigmalião

Edward Burnes-Jones - The Soul Attains (IV of IV), First Series

A história de Pigmalião contada ontem, no âmbito de uma reflexão sobre o platonismo, tem uma outra vertente particularmente interessante. Diz respeito à relação do artista com a sua própria obra. De certa maneira, o mito de Pigmalião é uma resposta ao mito de Narciso. Narciso apaixonou-se pela sua própria imagem, pelo reflexo dela na água, isto é, apaixonou-se pela sua aparência. Este amor-próprio é estéril e condena o amante ao definhamento. No caso de Pigmalião, a saída é diferente. Se tanto Narciso como Pigmalião estavam descontentes com a realidade do mundo sensível, com as mulheres - a ninfa no caso de Narciso - que se poderiam oferecer ao seu amor, Pigmalião encontra uma saída criadora. Em vez da esterilidade da contemplação do seu próprio reflexo, criou o objecto do seu amor. 

Nesta criação ele, apesar de se apaixonar por algo que lhe saiu das mãos, rompe com a pura imanência e joga-se no devir da existência e no contacto com o outro. Deste ponto de vista, que não é um ponto de vista estético, a arte é uma possibilidade de rompimento com a clausura do ego. Criar, para o artista, significa transcender-se, ir para além de si, quebrar as fronteiras rígidas onde se encontra preso. É, por seu turno, um acto devocional ambíguo, pois a obra de criação representa uma abertura para a transcendência e, ao mesmo tempo, pelo facto de ser a obra própria que se ama, uma forma de reter uma ligação ao próprio ego. A arte surge então como uma espécie de ensaio, de uma experiência no mundo fora de si, mas de uma experiência ainda limitada por um amor circunscrito à sua obra. A consumação da viagem passará, por exemplo, por experimentar e compreender essa Ideia, que está para além de si e do mundo sensível, que foi modelo da obra. O mito de Pigmalião mostra-nos que o caminho de ruptura com o narcisismo começa com a arte para continuar na filosofia. Isto evidencia ainda uma outra coisa: nos mitos gregos incoava já a filosofia e que ela não é compreensível, mesmo hoje, sem a sua ligação radical à imaginação mítica.