sexta-feira, 15 de junho de 2012

O emblema



Estudar filosofia é coisa desconcertante e não admira que o poder político não nutra especial afecto pelo exercício. Um dos ramos da minha educação filosófica dá pelo nome de hermenêutica da suspeita. Em linhas gerais, essa esdrúxula designação remete para a interpretação de um texto ou de um comportamento. Mas essa interpretação não se fica por aquilo que a mensagem aparenta dizer. Quando leio um texto ou analiso um comportamento humano pergunto sempre o que se esconde por trás deles. Que coisa aquele texto ou comportamento querem dissimular, que realidade se oculta sob o véu da aparência?

Um dos comportamentos mais bizarros deste governo reside no uso, pelos seus membros, de um emblema na lapela. Há muito que passou o fervor que levava as pessoas a usarem um emblema da pátria, do partido, da religião ou do clube de futebol na lapela. Hoje em dia, ninguém usa qualquer tipo de emblema. Muito menos pessoas que, como acontece com os membros deste governo, se identificam socialmente com os sectores mais elitistas do país, que abominariam ter de usar qualquer tipo de emblema.

Que mensagem pretende o governo passar? A primeira, um verdadeiro acto falhado que parece dar razão ao bispo Torgal, apela para ideia, tão querida de Salazar, de união nacional. O governo quer convencer-nos de que a sua política não resulta de uma opção partidária – por certo legítima, mas partidária – mas de um desígnio nacional. Não estou a dizer que o governo é salazarista ou adepto de uma ditadura. Não é uma coisa nem outra, mas está a apelar a um imaginário utilizado por Salazar e que julga ser do agrado dos portugueses. A segunda mensagem, complementar da primeira, pretende mostrar que o governo, num tempo de globalização e onde o dinheiro não tem pátria, é profundamente patriótico.

O que se esconde atrás do emblema? O que pretende o governo dissimular? O que justifica esta aparente obsessão com a bandeirinha de Portugal usada por pessoas que devem odiar ter um emblema ao peito? O que se oculta é o reverso daquilo que se pretende mostrar: esconde-se que há outras políticas possíveis e que poderiam servir Portugal. Fundamentalmente, esconde-se que este governo é o representante não dos portugueses, mas dos interesses estrangeiros que se estão a apoderar do que nos resta da nossa herança. O governo da bandeira ao peito foi o que vendeu a EDP a uma companhia estatal chinesa ou que dobra a cerviz, subserviente, na presença da senhora Merkel. Os emblemas servem para isto mesmo: esconder a realidade, dissimulá-la e perverter a consciência que temos dela.