quarta-feira, 20 de junho de 2012

Primavera árabe, a purificação pelo sangue

Giorgio Chirico - El doble sueño de primavera (1915)

Com a aproximação da morte de Hosni Mubarak, a comunicação social focou de novo a sua atenção no Egipto. O que se descobre é um país em grande convulsão política, à beira de uma tragédia. A transição à democracia deu o resultado que se sabe. A segunda volta das eleições opôs um homem da ditadura de Mubarak ao representante da Irmandade Muçulmana. Todas as ilusões sobre uma democracia liberal esbarraram no pronunciamento do povo. Como se sabe, a instigação à democracia deu um banho de sangue na Líbia e outro, ainda em curso, na Síria. Quanto à Tunísia ver-se-á o que o futuro traz.

A comunicação social nunca perde uma oportunidade para simplificar – e reduzir à caricatura – a realidade. Aquando das revoltas no mundo árabe, não teve pejo em transferir a designação de primavera – uma metáfora que diz respeito às experiências políticas europeias – para os acontecimentos nos países muçulmanos em convulsão política. Esta simplificação lançou um enorme véu sobre a realidade e fez nascer nos incautos a ilusão de que esses países iriam passar por uma fase de transição à democracia idêntica à que se passou na Europa. Esta simplificação serviu também para esconder, ou para legitimar, a vergonhosa interferência de alguns países ocidentais em acontecimentos inomináveis.

A existência de pessoas que, nesses países, aspiram a uma democracia política e a um estado laico está fora de dúvida. No entanto, o sentimento das massas assenta numa visão salvífica e libertadora do Islão. O sentimento de opróbrio sentido, a pobreza reinante, a injustiça sem fim devem-se, no sentimento popular, não ao Islão mas à corrupção da mensagem islâmica, uma corrupção devida às elites políticas que perverteram a mensagem do profeta. O que está em jogo não é a democracia, mas a possibilidade de voltar, ainda que através dos votos, à mítica pureza do Islão. Para o mundo muçulmano a bandeira da libertação e da emancipação não se encontra na democracia política nem na separação da política e da religião. Assenta na própria religião. Não perceber isto significa não perceber nada do que se está a passar.

A primavera árabe é uma metáfora para um sonho duplo e conflituante. Por um lado, o sonho dos ocidentais em exportar a democracia – e a influência livre dos mercados – para um território que lhe é estranho; por outro, o sonho de amplas camadas populares que pretendem a implantação de um Islão mais puro e rigoroso, de um Islão que varra da face da Terra a injustiça e a corrupção, que o mundo árabe simboliza no modo de vida e nas instituições ocidentais. O que o sonho ocidental alimentou não foi a conquista da democracia, mas mais um dos tradicionais banhos de sangue com que o Islão se purifica.