quinta-feira, 28 de junho de 2012

Religião e política

Max Beckmann - Christ and the Woman Taken in Adultery (1917)

A pretensão de Obama de que os progressistas devem adotar uma forma mais abrangente e tolerante em questões fé  (ao nível da) razão pública reflete um bom instinto político. É igualmente uma boa filosofia política. A tentativa de separar argumentos sobre a justiça e direitos de argumentos sobre a vida boa é errada por duas razões: primeiro, nem sempre é possível decidir questões de justiça e direitos sem resolver questões morais substantivas; e segundo, mesmo quando é possível, pode não ser desejável. (Michael J. Sandel (2011). Justiça - Fazemos o que Devemos? Lisboa: Editorial Presença, pp. 260-1.

O texto do filósofo norte-americano Michael Sandel coloca um problema muito interessante e que aplicado à Europa gera enormes perplexidades. O excerto apresentado surge após Sandel diferenciar as atitudes de Kennedy e de Obama (ambos presidentes americanos provenientes do partido democrático) em relação à presença no debate público de pontos de vista vindos do campo religioso. Kennedy foi favorável à neutralidade perante as questões morais substantivas provenientes da religião. Obama, pelo contrário, argumenta que, enquanto progressista, não pode abandonar o discurso religioso. O facto dos liberais americanos (progressistas) terem adoptado uma posição de neutralidade religiosa implicou que esse terreno fosse ocupado, como refere Sandel, pelos conservadores republicanos.

Esta questão que faz parte do debate político e filosófico americano parece, nos dias de hoje, completamente estranha  ao debate europeu. Duas razões são essenciais para essa estranheza. Por um lado, a conversão total e completa dos partidos inspirados na democracia-cristã ao denominado neoliberalismo e à consequente teologia do mercado. Esta conversão, pelo menos na Europa católica, significa que esses partidos se colocaram em contradição explícita com a doutrina social da Igreja Católica. A segunda razão situa-se à esquerda e ao seu enraizamento ou no jacobinismo republicano ou na tradição ateísta do marxismo, isto é, na adopção de outro tipo de teologias que não a cristã.

Se a direita trocou a teologia cristã pela teologia do mercado, então tem todo o interesse em escamotear a heresia, abolindo questões substantivas provenientes da religião, mesmo em matérias em que ela concorda com a posição da Igreja. A esquerda, pelo contrário, é para defender as suas teologias não cristãs que é incapaz de perceber o conteúdo emancipatório e crítico que está presente no discurso religioso e de o mobilizar em defesa daqueles que ela diz representar. Se a intervenção de certos bispos e mesmo do Papa, em matéria de economia e direitos sociais, deixa a direita desconcertada, o mesmo se passa com a esquerda. Presa aos seus preconceitos teológicos, a esquerda não consegue compreender que o cristianismo contém em si um potencial libertador que se pode conjugar, se se colocarem de lado os devaneios sobre a construção de paraísos na Terra, com o ideal grego da justa medida para estabelecer sociedades socialmente equilibradas.

Neste momento, parece claro que na Europa o debate político está muito longe daquilo que é mobilizado nos EUA. No entanto, e contrariamente ao que podem pensar aqueles que vêm nesta neutralidade religiosa do discurso político europeu um bem absoluto, poder-se-á estar a caminhar para um lugar muito perigoso ao colocar de lado o potencial social e político das religiões. Pode-se estar a entregar esse espaço a organizações radicais que parecem nascer como cogumelos no mapa político europeu. O crescimento dessas organizações amparado no discurso religioso pode ser uma verdadeira catástrofe. 

A esquerda teria alguma coisa a ganhar se, neste caso, escutasse Obama. Isto, porém, não significa que o discurso político se torne numa espécie de homilia. Significa apenas que há bens morais substantivos presentes na religião que merecem ser defendidos politicamente e por isso devem ser trazidos para o espaço público.