terça-feira, 19 de junho de 2012

Silêncio

Júlio Pomar - da série Os Tigres

Cala-te! A distância que vai de ti à minha dor pede o silêncio. As tuas presas são navalhas afiadas, abrem rios de sangue na pele mais dura, crescem mesmo na hora em que o teu corpo se abre para mim. Cala-te! Para que servem as tuas palavras? Não suporto confissões e a verdade é uma planície baldia no teu coração. A avidez que tive dos teus seios perdeu a música que a movia. Resta-me o cheiro feroz e selvagem, o exercício da dor, a libertação do sangue. Para isso, chegam os teus dentes, punhais cravados no meu peito, o cântico silencioso das veias dilaceradas sob o império dessa boca.