quinta-feira, 19 de julho de 2012

A imaturidade ocidental

Jacinta Gil Roncalés - La carcel del pensamiento (1998)

Dar-se conta de que as coisas mais fundamentais da realidade estão fora da jurisdição do pensamento e da vontade constitui para numerosas culturas o início da maturidade. É esta consciência que incita a deixar crescer a confiança na realidade, que é a origem da alegria e da paz. (Raimon Panikkar (2012). Mystique plénitude de Vie. Paris: Éditions du Cerf, p. 41)

Quando no início do Timeu, de Platão, é narrado o episódio do encontro entre Sólon e sacerdotes egípcios, um destes, muito velho, diz: "Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho" (Tm 22 b). Esta ideia de uma  imaturidade dos gregos, assinalada por um representante de uma tradição não ocidental, marca a natureza civilizacional do Ocidente. A imaturidade nasce, conforme se percebe na continuação da leitura do Timeu, da incapacidade de recordar as tradições mais antigas, aquelas que constituem o fundamento da actualidade. A questão da maturidade, porém, não residirá num culto do passado pelo passado, mas da consideração de uma sabedoria que se foi instituindo na longa experiência da humanidade e que os ocidentais julgaram por bem esquecer.

Como se desenvolveu, na história do mundo, a imaturidade ocidental? Ela cresceu na crença de que a realidade está dentro do poder do pensamento e da vontade humanos. Que o homem a pode conhecer segundo o seu pensamento e transformá-la conforme a sua vontade. Foi esta crença, iniciada na Grécia com a própria filosofia e continuada na Europa moderna com a preponderância da acção que, curiosamente, tornou possível a dominação que o Ocidente, durante alguns séculos, exerceu à escala mundial. Essa imaturidade manifesta-se na crença de que é real apenas aquilo que é pensável e aquilo que é fruto das acções voluntárias do homem. Isto produziu a mais desenvolvida civilização material de que há conhecimento, ao mesmo tempo que  reduziu os ocidentais a puras crianças, dependentes dos brinquedos tecnológicos e da acumulação de dinheiro. Toda a vida espiritual do Ocidente, hoje em dia, se resume à tecnologia e às finanças.

Apesar do poderio do pensamento e da acção ocidentais, o facto de, como os gregos, eles não passarem de crianças tornou a civilização ocidental completamente incapaz de resistir à sua desagregação. Passo a passo, em silêncio, as velhas civilizações asiáticas - que até há pouco pareciam moribundas - pegaram nas armas ocidentais e trataram de derrotar o Ocidente a partir dos pressupostos que ele próprio, no exercício da sua imaturidade, tinha criado. A Europa é já hoje uma dolorosa irrelevância e os EUA - essa outra Europa do lado de lá do Atlântico - entraram num processo de decadência que não tem fim à vista. Ao reduzir tudo ao pensamento calculador e à acção voluntária (à filosofia, à ciência e à economia), os ocidentais tornaram-se impotentes para perceber a sabedoria  que permitiu aos orientais tornarem-se, pouco a pouco, senhores do mundo. 

Muito provavelmente será tarde para evitar o completo colapso do Ocidente. No entanto, a cada um de nós abre-se a possibilidade de sair da imaturidade pela meditação do destino que está a cair sobre nós. A menoridade não reside, como pensava Kant no célebre manifesto sobre o Iluminismo, numa razão (teórica e prática) não autónoma. É a própria crença na autonomia da razão que é o sinal da imaturidade ocidental. O que há de mais fundamental na realidade, como lembra Panikkar, está para além do domínio da razão. Há outras luzes que as luzes do Iluminismo não deixam ver.