terça-feira, 3 de julho de 2012

Missa Pro Defunctis (XVII)


17. Communio: i. Lux æterna

Dói o coração, tão longa a tua ausência,
Os cabelos, outrora fogo, são cinza fria.
As rugas, flores secas nos vasos,
Nunca as cuidaste.
Enquanto esperava a palavra,
A casa despedaçou-se, as telhas roubadas,
O som de tambores e gritos de arlequim no quintal.

Uma lâmpada de querosene arde na noite,
Ilumina ruas e praças, ludibria a botânica,
Lança o mundo num caos de florações,
De pétalas incendiadas pela tua pulsação,
Pelos frutos verdes caídos na sombra do regaço,
Um regaço de musgo roubado à minha mão.

Dói dentro de mim a luz, o mundo ilumina,
Arde-me o querosene na circulação sanguínea,
Grita um relâmpago na escuridão da cabeça.
Espero a noite que não chega.
Espero a hesitação na cegueira dos teus lábios.
Espero o cheiro dos lagares no outono.

Uma luz cintila na ferocidade do deserto:
Um oásis de terror sobre a candura da areia.
Cactos, animais noctívagos, um grito nesse presépio,
Onde os teus olhos nunca pousaram.
A luz ilumina a eternidade, pura, cruenta,
Feita de pavor e sombra de esquecimento.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.