domingo, 1 de julho de 2012

O sono da razão

Francisco Goya - El sueño de la razon produce monstruos (1797)

Um dos traço da metafórica iluminista é precisamente a associação entre o sono da razão e o pesadelo. Os pesadelos da humanidade teriam a sua origem numa razão adormecida e não exercitada. É célebre o texto de Kant O que é o Iluminismo? [Esta tradução brasileira traduz Aufklärung por Esclarecimento e não por Iluminismo, sendo ambas as traduções aceitáveis.] Os monstros seriam as configurações sociais e culturais pré-iluministas, formadas pela tradição e pela superstição, ao arrepio do livre exame crítico e racional. Facilmente, veríamos nesta concepções iluministas o prolongamento do conflito entre o protestantismo e o catolicismo. Não é isso, porém, que me interessa.

Pegando no título do desenho de Goya, é possível descobrir uma outra problemática. Numa primeira leitura, estamos perante a perspectiva iluminista. Os monstros surgem porque a razão não está vigilante. Adormeceu e deixou o inimigo à solta. A razão é aquilo que não pode dormir, o sentinela eternamente acordado, a defensora de uma vida destituída de monstruosidades.

Uma outra leitura, contudo, é possível. O sono da razão produz monstros não porque ela não esteja vígil, mas porque esses monstros estão em potência na própria razão. A monstruosidade seria menos um produto da tradição e da superstição e mais o resultado da própria racionalidade. Por norma, somos levados a crer que a des-razão ou o irracional são negações da razão. No entanto, eles podem ser vistos como uma razão hiperbólica. Na des-razão e no irracional o que podemos encontrar não é a falta de razão mas o seu terrível excesso, a monstruosidade da própria razão. Por vezes, é mais saudável que a razão durma.