domingo, 26 de agosto de 2012

A virtude moral da dissimulação

José Gutiérrez Solana - El ciego de los romances (1915-1920)

Nós, os capazes de ver, vemos os reflexos dos movimentos da alma nos rostos alheios e, por isso, nos habituamos a esconder os nossos próprios. Os cegos, neste sentido, são absolutamente desprotegidos, pelo que na cara empalidecida de Piotr era possível ler tudo, como num diário pessoal deixado aberto numa sala - nela estava inscrita uma torturante inquietude. (Vladímir Korolenko, O Músico Cego)

Dissimular o que nos vai na alma é uma das maiores virtudes morais que se pode ensinar a alguém. Dissimular não é apenas o exercício de auto-defesa de um eu perante um mundo social adverso ou meramente inquiridor. Dissimular é poupar aos outros aquilo que se passa em nós, negar-lhes o árduo trabalho da comiseração ou evitar-lhes o terem de se confrontar com os nossos juízos negativos. Aprender a dissimular de forma competente é preparar-se para a vida em comum. Nada pior que uma alma transparente ou uma pessoa sempre pronta para proclamar a verdade.