quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ler o jornal e a oração da manhã

Warren Brandt - The Morning Paper (1966)

Fará ainda sentido a velha frase de Hegel "a leitura dos jornais é a oração da manhã do homem moderno"? Em primeiro lugar, é necessário tentar perceber o que diz o filósofo alemão. Na oração da manhã religiosa, o homem pede a Deus para mergulhar no dia sob a aura de idealidade a que a religião envia. O que está em jogo é a vida do crente, o seu devir quotidiano e local sob protecção dos céus. A frase hegeliana apresenta, pelo menos, dois traços essenciais: a leitura matinal dos jornais será um mergulho na realidade, no devir do mundo e dos seus interesses; concomitantemente, essa leitura representa uma desparoquialização da vida do indivíduo, um alargamento do horizonte  da sua acção ao permitir que ele enquadre a sua vida no acontecer do mundo. Pela leitura dos jornais, o homem moderno aprendia a inscrever o seu espírito no espírito do mundo.

Perguntar se a frase de Hegel anda faz sentido não tem a ver com a eventual decadência da imprensa escrita. Isso é irrelevante. Rádio, televisão e internet fornecem material suficiente à oração do homem contemporâneo. O interessante reside noutro lado. A oração da manhã é um momento preparatório para o homem mergulhar na actividade quotidiana. Ler o jornal é adquirir uma imagem sólida do estado de coisas, e é com a solidez dessa imagem que o homem moderno, no tempo de Hegel, mergulhava na acção quotidiana. Hoje em dia, porém, a todo o instante o estado do mundo é reportado, e o homem contemporâneo, para tomar o seu banho de realidade, deverá estar em oração contínua. O desenvolvimento dos meios de comunicação social - fundamentalmente, com o advento da internet - liquefez ou gaseificou a realidade. 

A informação, que permitia ao homem moderno de Hegel inscrever a sua acção de forma consciente e certificada (de si e da realidade) no estado do mundo, é agora motivo de incerteza. Hoje em dia, a informação não é o caminho para o homem mergulhar na realidade e agir sobre ela. A informação, na sua maximização e instantaneidade, tem o papel de des-realizar o mundo, de lhe roubar solidez e desfazer o mito da realidade. Isto encerra o homem contemporâneo - esse herdeiro do homem moderno de que falava Hegel - ou na pura inacção, devido à incapacidade de tomar decisões num ambiente tão imprevisível, ou numa acção superintendida pela lógica dos jogos de azar. [Exemplos: no caso da inacção, temos os líderes políticos europeus perante as várias crises que assolam a UE; no segundo, temos a lógica dos mercados financeiros e as crises que eles provocaram.]

O resultado, na prática, é a devolução da consciência humana ao estado pré-moderno, onde a realidade, por impotência para coligir informação sobre ela, era sonegada a essa consciência. Todavia, há uma diferença assinalável entre o homem contemporâneo e o pré-moderno. Este último ainda tinha a possibilidade de erguer, com profunda convicção ou fé, todas as manhãs o pensamento e o coração à divindade, coisa a que o homem contemporâneo, enraizado no desejo das coisas terrenas, perdeu o direito. Fazê-lo agora seria uma farsa na qual nem ele próprio acreditaria. Não é impunemente que se mata Deus.