quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Marx, Steiner e o dom da profecia

Ernst Barlach - Prophet Writing (1919)

A análise marxista da história revelou-se unilateral e muitas vezes absolutamente ao arrepio da evidência. Previsões marxistas cruciais ficaram por cumprir, e não creio que precisemos de ser técnicos ou profissionais da economia para vermos quão desabridamente incorrecto o marxismo se revelou, por exemplo, quanto ao empobrecimento da classe trabalhadora ou à tão repetida profecia do colapso cataclísmico e iminente do capitalismo. (George Steiner, Nostalgia do Absoluto, p. 21)

O tempo é cruel. Esta crueldade deriva da sua natureza infiel. Não deveria o tempo certificar as profecias humanas e assim mostrar a sua fé nos homens? Esta leitura do marxismo e da sua incorrecção desabrida é feita no Outono de 1974. Steiner fá-la com ar entristecido, como se alguma coisa morresse dentro dele. Ao mostrar que Marx era um mau profeta, Steiner esquece o tempo e a sua natureza infiel. Também Steiner, e ele não o sabia, estava a fazer uma profecia sobre as más profecias de Marx. O que ele não podia suspeitar é que a sua profecia era má, talvez pior que a de Marx. 

Haverá aqui um traço que une Marx e Steiner. Esquecem as alterações que a liberdade e a iniciativa dos homens introduzem no decurso da história, esquecem a natureza infiel da temporalidade. Nas condições em que Marx faz a sua análise e a sua profecia, talvez esta tivesse sentido e fosse logicamente viável. Quando, em 1974, Steiner faz esta profecia sobre Marx, aquilo que diz faz sentido. Mas se o tempo é infiel aos homens, a história é perversa. Se em 1974, o capitalismo prometia, e fazia, uma vida mais decente para os trabalhadores, hoje em dia Marx volta a ter razão. Desde os finais dos anos 80 que está em marcha um processo de empobrecimento do mundo do trabalho.

Qual o motivo por que Marx parece ter-se enganado num primeiro tempo? Foi o próprio êxito do pensamento marxista que conduziu ao engano. A influência de Marx, consubstanciada na revolução russa de 1917, gerou um pânico tal no mundo capitalista que este teve de chamar a classe trabalhadora para dentro do contrato social e deixar que os trabalhadores pudessem elevar-se ao estatuto de classe média. Qual o motivo por que se engana Steiner em 1974? Porque não conseguiu prever o colapso da União Soviética e o fim da ameaça do comunista. O capitalismo, apesar das alterações dramáticas que sofreu, retornou ao que era a sua natureza antes de 1917.

Resta saber, porém, uma coisa. Se a profecia marxiana do empobrecimento dos trabalhadores parece estar a concretizar-se, será que a outra profecia citada, o colapso eminente do capitalismo, poderá acontecer? Steiner, na análise que faz, ilude uma coisa. As duas guerras mundiais e o crash de 1929 são cataclismos inerentes ao próprio capitalismo. Não geraram o colapso mas mostraram o grau de destruição inerente a este tipo de sociedade. Não sabemos o que vai acontecer, mas uma coisa é certa, as crises do subprime, nos EUA, e das dívidas soberanas, na UE, têm enormes potenciais cataclísmicos. Falta saber se gerarão o colapso, iminente ou não, do sistema. Dito de outra maneira, falta descobrir se Marx merece ou não ombrear com os velhos profetas do Antigo Testamento. O tempo, com a sua crueldade e amor pela infidelidade aos propósitos humanos, o dirá.